No Brasil, 14,4 milhões de pessoas têm deficiência; escritora e ativista Thais Pessanha alerta para as barreiras de acesso à leitura e defende acessibilidade e representatividade no mercado editorial.
Celebrado em 29 de outubro, o Dia Nacional do Livro costuma ser marcado por ações de incentivo à leitura e valorização da literatura. Mas, para uma parcela significativa da população, ter acesso a um livro ainda pode ser um desafio. O Censo Demográfico 2022 do IBGE apontou que 14,4 milhões de pessoas com deficiência vivem no Brasil, o equivalente a 7,3% da população com dois anos ou mais de idade. Diante desse cenário, a data também provoca uma pergunta fundamental: quando falamos em direito à leitura, estamos garantindo que todas as pessoas tenham condições de acessar a literatura?
Mais do que disponibilizar livros, discutir o acesso à literatura significa pensar em formatos adequados a diferentes públicos, tecnologias assistivas, bibliotecas e espaços culturais preparados para diferentes formas de acesso. Também significa ampliar a presença de pessoas com deficiência não apenas como leitoras, mas como autoras, produtoras e protagonistas do circuito literário.
“Democratizar a leitura exige derrubar as barreiras que afastam os leitores com deficiência dos livros. Ler é ter voz, e a acessibilidade é o caminho que garante que ninguém fique em silêncio, é assegurar que corpos e vozes historicamente silenciados possam ocupar a literatura não apenas como leitores, mas como donos de suas próprias histórias”, afirma Thais Pessanha.
Ativista em defesa dos direitos das pessoas com deficiência e pelo combate ao capacitismo, Thais foi diagnosticada com Osteogênese Imperfeita, condição genética rara conhecida popularmente como “ossos de vidro”. A partir das próprias vivências, construiu uma trajetória que articula literatura, educação e ativismo.
Seu livro mais recente, Dias de Sol, reúne crônicas autobiográficas sobre infância, adolescência e vida adulta e aborda, com humor, afeto e ironia, situações cotidianas atravessadas pela deficiência, pela falta de acessibilidade e pelo preconceito.
A obra foi publicada em três formatos: impresso, e-book e audiolivro, ampliando as possibilidades de acesso à mesma história. O audiolivro é narrado pela atriz Juliana Caldas, que se destaca por sua militância em favor dos direitos das pessoas com nanismo e pela defesa da presença de pessoas com deficiência na arte. A escolha também reforça a importância da representatividade na própria produção literária e cultural.
Em Dias de Sol, Thais desloca a narrativa sobre deficiência do lugar recorrente do drama e da “superação”. A autora fala sobre autonomia, desejo, humor, relações, barreiras urbanas e capacitismo a partir de situações do cotidiano, mostrando como muitas das limitações enfrentadas por pessoas com deficiência estão relacionadas também à falta de recursos e às barreiras criadas pela sociedade.
A trajetória de Thais também passa pela criação do Clube de Leitura Ossos de Pássaro, projeto voltado à promoção da leitura e ao debate sobre deficiência, representatividade e inclusão. Em 2025, a iniciativa foi finalista do Prêmio Jabuti, na categoria Fomento à Leitura. Com encontros gratuitos online, mediação e recursos de acessibilidade, o clube já discutiu dezenas de livros e criou um espaço para que pessoas com deficiência estejam presentes no circuito literário não apenas como tema, mas também como leitoras, autoras e produtoras culturais.

