Por Danilo Costa – Diretor Executivo do Grupo Cultural AfroReggae
Dados recentes do IBGE mostram que mais de 19,5 milhões de pessoas vivem em ruas sem pavimentação. Outras 80 milhões moram em vias sem bueiro ou boca de lobo, sujeitas a alagamentos, esgoto a céu aberto e doenças evitáveis. Quase 4 milhões residem em locais sem iluminação pública — o cotidiano se impõe entre a escuridão e o medo. O Censo Demográfico mais recente não apenas descreve essa realidade: ele a escancara.
Outros 27 milhões vivem em locais sem calçada. E mesmo onde há calçadas, apenas 32,8 milhões de brasileiros moram em vias onde elas estão livres de obstáculos. Para quem tem mobilidade reduzida, essa ausência se transforma em barreira. O mesmo levantamento revela que dois em cada três brasileiros vivem em ruas sem rampas para cadeirantes.
As cidades brasileiras, à luz desses dados, revelam um retrato de privações profundas. Em mais de 158 milhões de casos, os moradores vivem em ruas sem ponto de ônibus ou van. Isso significa que o transporte coletivo — essencial para o acesso ao trabalho, à escola, à saúde — simplesmente não chega.
E as ausências não param nas ruas. Dentro das casas, 10,7 milhões de pessoas vivem em domicílios que não possuem ligação com a rede geral de distribuição de água. Outros 98 mil moradores vivem em domicílios sem banheiro nem sanitário de uso exclusivo. Em mais de 810 mil casos, o lixo é descartado em terrenos baldios, encostas ou áreas públicas.
Esses dados fazem parte da publicação do IBGE sobre as características do entorno dos domicílios, um levantamento que permite visualizar a realidade cotidiana de milhões de brasileiros, a partir do local onde vivem.
Na análise proporcional, observa-se que essas ausências são ainda mais concentradas em favelas e entre a população negra — grupos historicamente mais expostos às vulnerabilidades estruturais e menos atendidos pelas políticas públicas.
Esses dados não representam exceções. Estamos falando de pessoas. Eles delineiam um padrão. Um mapa do que falta. Um território marcado não pelo que se tem, mas pelo que ainda não chegou.
Falar das ausências é reconhecer que a cidadania só começa onde existe ao menos o necessário. Onde se pode caminhar, circular, morar com dignidade. Sem calçada, não se caminha. Sem luz, não se enxerga. Sem água, não se vive. Esses dados não pedem apenas leitura: pedem resposta.
