Iniciativa vinculada ao Conselho Nacional dos Direitos Humanos (CNDH) e ao IBASE amplia o acesso a ferramentas de denúncia, dá visibilidade a pesquisas e ações de monitoramento e reforça a defesa dos direitos humanos e da democracia
Em um cenário no qual o discurso de ódio, a intolerância e as manifestações extremistas representam desafios cada vez mais relevantes para a convivência democrática, o Observatório Brasileiro sobre Discurso de Ódio, Extremismo e Neonazismo (OBEN) lança um canal público de comunicação e ferramentas digitais de denúncia para aproximar a sociedade de informações, pesquisas e iniciativas voltadas ao enfrentamento desses fenômenos no Brasil.
A novidade integra o Plano de Ação Institucional 2026/2027 do Observatório e marca um avanço na estratégia de ampliar o acesso da população ao conhecimento produzido pela instituição. A proposta é transformar informação em ferramenta de conscientização, prevenção e participação social, fortalecendo o debate público sobre direitos humanos, respeito à diversidade e proteção da democracia.
Para Carlos Nicodemos, relator especial para o Enfrentamento ao Discurso de Ódio, Extremismo e Neonazismo do Conselho Nacional dos Direitos Humanos (CNDH), o lançamento das ferramentas digitais do Observatório constitui uma etapa importante, especialmente diante do crescimento das denúncias de ataques contra grupos minoritários e em situação de vulnerabilidade.
“O ambiente virtual é um terreno a ser ocupado por ferramentas legais para o monitoramento, controle e responsabilização das violações de direitos humanos”, destaca Nicodemos.
Criado no âmbito da Relatoria Especial de Enfrentamento ao Discurso de Ódio, Extremismo e Neonazismo do CNDH e vinculado ao Instituto Brasileiro de Análises Sociais e Econômicas (IBASE), o OBEN oferece suporte técnico, científico, político e comunicacional à atuação da Relatoria.
Da identificação do ódio à construção de respostas concretas
Mais do que observar e registrar manifestações de intolerância, o OBEN trabalha na produção de conhecimento e no desenvolvimento de estratégias institucionais para enfrentar o discurso de ódio, o extremismo e o neonazismo. Sua atuação reúne pesquisas aplicadas, monitoramento, missões territoriais e temáticas, audiências públicas, seminários, campanhas educativas e articulação com instituições públicas e organizações da sociedade civil.
Um dos eixos centrais desse trabalho é a escuta de pessoas e comunidades atingidas por práticas discriminatórias. Os relatos são associados à produção de dados e evidências verificáveis, seguindo parâmetros nacionais e internacionais de direitos humanos. A iniciativa busca contribuir para que experiências de violência e discriminação sejam reconhecidas, documentadas e consideradas na formulação de respostas institucionais.
Com o novo canal, estudos, relatórios, recomendações, campanhas e demais atividades do Observatório passam a ter uma via ampliada de divulgação, aproximando o conhecimento técnico do cotidiano da população.
A proposta também é ampliar os mecanismos de participação social. Além dos canais oficiais do CNDH, a sociedade passa a contar com um espaço de interação voltado não apenas ao recebimento de denúncias, mas também à disseminação de informações e conteúdos sobre discurso de ódio, extremismo e neonazismo no Brasil e no mundo.
Segundo Carlos Nicodemos, essa aproximação é fundamental para ampliar o acesso da população ao trabalho desenvolvido pelo Observatório.
“Com a entrada no ambiente virtual, além dos canais oficiais do CNDH, a sociedade contará com um espaço de interação não só para denúncias, mas também para informações temáticas sobre o discurso de ódio, extremismo e neonazismo no Brasil e no mundo”, explica.
Discurso de ódio e extremismo como ameaça à democracia
O enfrentamento ao discurso de ódio, ao extremismo e ao neonazismo também é apresentado pelo OBEN como uma questão diretamente relacionada à proteção da democracia e dos direitos humanos.
O lançamento das ferramentas digitais ocorre em um contexto de preocupação com a disseminação de manifestações discriminatórias, ameaças e episódios de violência política, especialmente no ambiente virtual. A iniciativa busca fortalecer a participação da sociedade na identificação e no encaminhamento de denúncias, contribuindo para que violações sejam apuradas pelas instituições competentes.
Para Ivana Leal, presidenta do CNDH, o lançamento representa uma resposta institucional importante diante dos desafios enfrentados pela democracia brasileira.
“O lançamento das ferramentas de denúncia do Observatório de Enfrentamento ao Discurso de Ódio, ao Extremismo e ao Avanço das Células Neonazistas, desenvolvido pelo CNDH em parceria com o IBASE, chega em um momento decisivo para a democracia brasileira. As eleições de 2026 evidenciaram a gravidade do problema, com inúmeros registros de racismo, misoginia, ameaças e violência política, especialmente nas redes sociais. Não podemos permitir que o ódio seja naturalizado como parte da disputa política. Queremos que essas ferramentas sejam instrumentos de participação da sociedade, para que as violações sejam denunciadas, investigadas e seus responsáveis, devidamente responsabilizados. Cada denúncia importa. Enfrentar o discurso de ódio é proteger vidas, garantir direitos e defender a democracia”, afirma Ivana.
Para Carlos Nicodemos, trata-se de um desafio que ultrapassa fronteiras nacionais e exige uma resposta permanente da sociedade e das instituições.
“Estamos trabalhando um tema que está na quadra da história mundial. Temos que ter a compreensão de que o enfrentamento ao discurso de ódio, extremismo e neonazismo é uma demanda existencial da humanidade. E, com o OBEN, damos um passo para esse enfrentamento irrenunciável”, destaca.
Nesse contexto, o monitoramento e a sistematização de informações tornam-se instrumentos importantes para compreender a dimensão do problema e subsidiar políticas públicas.
O Observatório defende a necessidade de uma política nacional específica para o enfrentamento dessas manifestações.
“Temos apontado que o Brasil carece de uma Política Nacional de Enfrentamento ao Discurso de Ódio, Extremismo e Neonazismo. Os dados que temos sistematizados vão ao encontro deste desafio e nos fortalecem na exigibilidade desta política, que deve ser de Estado e não de governo”, afirma Carlos Nicodemos.
Informação, participação social e defesa da democracia
A comunicação pública é parte estratégica do enfrentamento ao discurso de ódio. Ao ampliar a circulação de informações qualificadas, o OBEN pretende contribuir para a identificação de práticas discriminatórias, estimular a conscientização e fortalecer uma cultura de respeito aos direitos fundamentais.
O canal também busca dar maior transparência às ações desenvolvidas pelo Observatório e ampliar a participação da sociedade em um debate que envolve diretamente a proteção de grupos historicamente discriminados e a preservação do Estado Democrático de Direito.
Para Carlos Nicodemos, a nova ferramenta representa uma oportunidade de estabelecer uma referência institucional permanente sobre o tema.
“O mais importante é fincarmos um marco institucional sobre o tema e, com esta referência, irmos construindo uma política de Estado, dialogando com a sociedade”, ressalta.
Mulheres, pessoas com deficiência, população negra e comunidade LGBTQIA+ estão entre os grupos mais atingidos
O OBEN também chama atenção para a diversidade dos grupos que podem ser atingidos pelo discurso de ódio, pelo extremismo e por manifestações neonazistas. Embora o fenômeno tenha raízes históricas associadas ao nazismo e à perseguição ao povo judeu, suas manifestações contemporâneas atingem diferentes segmentos da sociedade.
De acordo com Carlos Nicodemos, é necessário ampliar a compreensão sobre as formas atuais de manifestação dessas ideologias e práticas discriminatórias.
“Este é um tema que, no Brasil, está parado no século passado, na Segunda Guerra Mundial, especialmente o nazismo. Hoje, o discurso de ódio, o extremismo e o neonazismo afetam mais agudamente grupos minoritários e em situação de vulnerabilidade, como mulheres, pessoas com deficiência, comunidade LGBTQIA+ e pessoas pretas. Então, não é um problema que afeta somente o povo judeu, o que já seria muito grave”, afirma.
O especialista ressalta ainda que a defesa da democracia deve estar no centro das estratégias de enfrentamento ao extremismo.
“Ademais, temos que ter em consideração que o extremismo e o neonazismo foram forjados em modelos autoritários de regime. Logo, a democracia é um valor que devemos proteger de forma intransigente”, completa.
Uma estrutura permanente de monitoramento e conhecimento
Instituído pela Lei nº 12.986/2014, o Conselho Nacional dos Direitos Humanos (CNDH) é composto paritariamente por representantes do poder público e da sociedade civil.
Sua missão é promover, proteger, defender e monitorar os direitos humanos no Brasil. Nesse contexto, a Relatoria Especial de Enfrentamento ao Discurso de Ódio, Extremismo e Neonazismo atua diante de manifestações que ameaçam direitos fundamentais e atingem, de maneira particularmente grave, grupos historicamente vulnerabilizados.
O OBEN contribui para esse trabalho por meio de uma estrutura permanente de observação, análise, pesquisa e apoio à formulação de recomendações e políticas públicas.
O lançamento do canal público representa, portanto, mais do que uma nova ferramenta de comunicação. É um passo para ampliar o acesso à informação, fortalecer a transparência institucional e aproximar a sociedade das iniciativas de enfrentamento ao ódio e à intolerância no país.
A partir desse novo espaço, o OBEN pretende ampliar o diálogo com diferentes setores da sociedade, estimular a participação social e contribuir para a construção de respostas institucionais capazes de enfrentar manifestações de ódio, extremismo e neonazismo e, ao mesmo tempo, fortalecer os valores democráticos e a garantia dos direitos humanos.
Sobre o OBEN
O Observatório Brasileiro sobre Discurso de Ódio, Extremismo e Neonazismo (OBEN) é um mecanismo institucional criado no âmbito da Relatoria Especial de Enfrentamento ao Discurso de Ódio, Extremismo e Neonazismo do Conselho Nacional dos Direitos Humanos (CNDH), vinculado ao Instituto Brasileiro de Análises Sociais e Econômicas (IBASE).
Sua atuação reúne pesquisa, monitoramento, educação em direitos humanos, participação social e incidência pública, contribuindo para a produção de conhecimento e para o desenvolvimento de estratégias de enfrentamento ao discurso de ódio, ao extremismo e ao neonazismo no Brasil.
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