Salve, salve minhas queridas capivaras.
Nesta sexta-feira, dia 09 de outubro, o escritor Roberto Tardelli estará no Rio de Janeiro para o lançamento do seu livro ” O Espelho das Bruxas”, romance publicado pela Emó Editora, onde Direito e ficção se encontram em uma história marcada por trauma, violência contra mulheres, culpa, reparação, justiça e vingança
No evento, que começa às 19h, na Blooks Livraria de Botafogo, Tardelli participará de uma conversa sobre literatura, jornalismo, imagem e as diferentes formas de narrar a violência, ao lado de Luciana Barreto e Miguel Paiva.

A equipe do A Capivara Deu Cria teve a honra de entrevistar o autor, num bate-papo bem legal que vocês conferem abaixo:
1. Qual foi a inspiração para escrever esse livro?
Foram mais de três décadas lidando com o crime de perto, ouvindo vítimas, réus, testemunhas e famílias inteiras. Uma hora a gente percebe que aquelas histórias não cabem só nos autos: elas pedem para ser contadas de outro jeito. Mas o empurrão final veio do que eu via acontecer fora do fórum, nas redes sociais, onde todo mundo vira juiz em questão de minutos. Quis colocar isso diante de um espelho. Daí nasceu O Espelho das Bruxas, meu primeiro romance.
2. Nos dias atuais, o público tem tido um grande interesse por obras baseadas em true crime. De onde vem essa fascinação?
Acho que o crime mexe com aquilo que a gente tem de mais escondido: medo, curiosidade e uma pontinha de alívio por estar do lado de cá da história. O true crime permite olhar para o abismo sem cair nele. E tem também a vontade de entender o porquê, como uma pessoa comum chega àquele ponto. O cuidado que precisamos ter é não transformar a dor real de alguém em puro entretenimento. Por isso preferi a ficção: ela me deu liberdade para provocar sem expor ninguém.
3. Sua obra aborda a exposição pública da violência e o papel das redes sociais na formação de julgamentos coletivos. Fale um pouco sobre isso.
Antigamente, a fogueira era na praça; hoje ela é acesa no celular. As redes deram voz a muita gente, o que é ótimo, mas também criaram tribunais sem defesa, sem prova e sem recurso. Um vídeo de poucos segundos basta para condenar alguém e destruir uma vida, às vezes antes mesmo de a polícia chegar. O título do livro brinca justamente com isso: a caça às bruxas nunca acabou, só mudou de endereço. E o espelho está ali para a gente se perguntar quem, afinal, segura a tocha.
4. Falando sobre sua experiência de mais de 30 anos como Promotor de Justiça, qual a principal diferença entre a sociedade de hoje e a sociedade do começo da sua carreira?
Quando comecei, há uns 35 anos, o país ainda carregava as marcas da ditadura militar. A democracia era jovem, as instituições estavam reaprendendo a funcionar, e muita gente ainda tinha medo de falar. Vivi de perto o esforço enorme para construir um sistema de Justiça que respeitasse direitos. Por isso confesso: jamais imaginei que, olhando para o resultado das últimas eleições, eu fosse sentir que estamos andando para trás, flertando de novo com aqueles dias. É um alerta, e a literatura também serve para dar esse recado.
5. O livro é baseado em algum caso em particular?
Sim, a semente foi o Caso Richthofen, que parou o país em 2002 e no qual atuei como Promotor de Justiça. Vivi aquilo por dentro, e me impressionou não só o crime em si, mas o espetáculo que se formou em volta dele: a cobertura sem fim, a curiosidade quase obsessiva e o julgamento popular que veio muito antes do julgamento no Tribunal do Júri. Dito isso, o livro é ficção. Personagens, nomes e caminhos da história são outros. Usei o caso como ponto de partida para falar de algo maior: como a sociedade transforma uma tragédia em vitrine e escolhe suas bruxas. O espelho, no fim, aponta para nós.

Serviço:
Lançamento do livro “O Espelho das Bruxas” de Roberto Tardelli
Dia 09 de outubro- Sexta-feira
Horário 19h
Local : Blooks Livraria – Praia de Botafogo, 316 – Botafogo, Rio de Janeiro

