Livro reúne especialistas para discutir como algoritmos, influenciadores e a cultura digital impactam a construção da identidade, dos relacionamentos e do desejo ao longo da vida
Foto: Ruan Nolasco
Nunca se falou tanto sobre sexualidade. Ao mesmo tempo em que as redes sociais democratizaram o acesso à informação, elas também passaram a influenciar profundamente a maneira como crianças, adolescentes e adultos constroem suas percepções sobre corpo, desejo, identidade e relacionamentos. Em um cenário marcado por algoritmos, influenciadores digitais, aplicativos de relacionamento e acesso cada vez mais precoce à internet, especialistas alertam para a necessidade de ampliar o diálogo sobre o tema.
Essa reflexão é um dos destaques de Sexualidades Não Nascem Prontas: do nascimento ao envelhecimento, obra organizada pela psicanalista Mônica Donetto Guedes e por Renata Botelho, que será lançada em agosto de 2026 pela INM Editora. Reunindo 27 autoras e autores de diferentes áreas do conhecimento, o livro propõe uma análise interdisciplinar sobre a sexualidade como uma experiência construída ao longo da vida e influenciada por fatores biológicos, emocionais, sociais, históricos e culturais.
Para Mônica, as redes sociais passaram a ocupar um papel central na formação da identidade, especialmente entre os mais jovens, tornando urgente a construção de espaços seguros para o diálogo.
“As redes sociais passaram a ocupar um lugar importante na construção da identidade e da sexualidade, especialmente entre crianças e adolescentes. Elas oferecem informação, mas também reforçam padrões de beleza, desempenho e comportamento que podem gerar ansiedade, comparação e sofrimento. A sexualidade não pode ser aprendida apenas pelos algoritmos. Ela precisa ser construída também por meio do diálogo, da escuta e das relações humanas”, afirma.
Segundo a especialista, a influência do ambiente digital não se restringe aos adolescentes. Adultos também são impactados diariamente por padrões de performance, juventude e aparência que afetam a autoestima, os vínculos afetivos e a maneira como vivenciam sua sexualidade.
Além de discutir os desafios impostos pelas redes sociais, o livro aborda temas como masculinidades e feminilidades, infância e adultização, corpo feminino, puerpério, comunicação afetiva, alimentação e erotismo, fetiches, homossexualidade, parentalidade, envelhecimento, saúde mental e relações conjugais.
Ao reunir profissionais da psicanálise, medicina, psicologia, educação, direito, nutrição, ciências sociais e artes, a obra convida o leitor a compreender que a sexualidade não é um aspecto estático da existência, mas um processo contínuo de transformação, influenciado pelas experiências, pelos afetos e pelo contexto em que cada pessoa vive.
Mais do que um lançamento editorial, Sexualidades Não Nascem Prontas: do nascimento ao envelhecimento propõe uma reflexão necessária sobre os impactos da cultura digital na forma como nos relacionamos com o corpo, com o desejo e com o outro, reforçando a importância da educação, da escuta e do pensamento crítico para uma vivência mais saudável da sexualidade em todas as fases da vida.
SOBRE MÔNICA DONETTO:
Mônica Donetto: a escuta que transforma histórias familiares em caminhos de cuidado
Psicanalista, psicopedagoga, educadora e escritora, Mônica Donetto construiu uma trajetória profissional marcada pela escuta sensível das crianças, adolescentes e suas famílias. O olhar atento para as relações humanas, que hoje orienta sua prática clínica e sua produção literária, nasceu muito antes da vida acadêmica: teve origem na convivência com uma família grande, diversa e repleta de histórias.
Carioca, Mônica cresceu cercada por pais, irmão, tios, primos e avós cujas trajetórias atravessavam diferentes culturas e origens. Entre narrativas familiares que transitavam entre Brasil e Itália, raízes portuguesas e a herança negra de parte de sua família, desenvolveu desde cedo uma profunda curiosidade pelas pessoas e pelos caminhos que moldam cada existência.
A infância, no entanto, também foi marcada por desafios. Inserida precocemente no processo de alfabetização, enfrentou dificuldades de aprendizagem decorrentes da falta de maturidade cognitiva para aquele momento. A experiência trouxe consequências importantes para sua vida escolar, incluindo a reprovação na adolescência e o sentimento constante de não corresponder às expectativas impostas pelo ambiente ao seu redor.
“Por muito tempo fui a filha que dava trabalho, aquela que não se encaixava nos padrões esperados. Hoje entendo que essa vivência foi fundamental para a profissional que me tornei”, reflete.
As dúvidas sobre o próprio caminho também estiveram presentes na escolha da carreira. Influenciada por familiares, chegou a ingressar em um curso que não dialogava com sua essência. Mais tarde, encontrou seu lugar ao cursar Letras na Universidade Federal do Rio de Janeiro (UFRJ), unindo duas paixões que carregaria por toda a vida: a escrita e o interesse genuíno pelas pessoas.
Foi justamente a partir da própria história que Mônica se aproximou da Pedagogia. Durante a formação, encontrou uma figura decisiva em sua trajetória: a educadora Márcia Parga, que reconheceu sua capacidade de escuta e a incentivou a seguir um caminho voltado para a compreensão dos processos de aprendizagem.
A partir daí, aprofundou-se na Psicopedagogia e descobriu que as dificuldades escolares raramente podem ser compreendidas apenas pela ótica cognitiva. Para ela, aprender envolve um delicado equilíbrio entre cognição, relações afetivas e aspectos emocionais. Essa compreensão a conduziu naturalmente à Psicanálise.
Ao longo de décadas de atuação clínica, Mônica desenvolveu um trabalho que integra criança, família e escola. Sua experiência inclui a gestão de uma instituição de educação infantil e ensino fundamental, além de especializações em orientação vocacional — uma área que escolheu justamente por compreender, em sua própria história, os impactos das expectativas familiares nas decisões profissionais.
Sua prática clínica é sustentada pela convicção de que a aprendizagem nasce dos vínculos. Para Mônica, a criança não pode ser compreendida isoladamente, mas como sujeito atravessado pelas histórias, desejos, conflitos e afetos de sua família. Por isso, seu trabalho busca incluir pais e cuidadores no processo terapêutico, promovendo reflexões que favoreçam relações mais saudáveis e conscientes.
Um marco importante em sua trajetória foi a leitura do livro Fomos Maus Alunos, de Rubem Alves e Gilberto Dimenstein. A obra a inspirou a ressignificar a própria experiência escolar e compreender que dificuldades na infância não determinam o futuro de ninguém. A partir desse encontro, sentiu-se autorizada a compartilhar sua história como parte da construção de sua identidade profissional.
Nos últimos anos, Mônica também observa transformações significativas nas dinâmicas familiares. Entre elas, destaca a participação cada vez mais presente dos pais nos processos clínicos e educativos. Embora ainda considere esse movimento minoritário, enxerga nele um importante sinal de mudança cultural e uma esperança para as novas gerações.
Foi da escuta cotidiana de crianças, adolescentes, famílias e educadores que nasceu seu livro Em Nome do Pai, da Mãe e do Filho, cuja segunda edição chega ao público pela INM Editora. A obra propõe uma reflexão profunda sobre as funções de cuidado dentro das famílias contemporâneas, ultrapassando modelos tradicionais e dialogando com diferentes configurações familiares.
Inspirada nos conceitos do pediatra e psicanalista Donald Winnicott, Mônica aborda a importância da construção de um ambiente de sustentação emocional — o chamado holding — capaz de oferecer acolhimento, segurança e limites para o desenvolvimento saudável das crianças.
A nova edição foi completamente revisada e ampliada, trazendo capítulos reescritos e textos inéditos inspirados nas demandas que chegam diariamente ao consultório. Ansiedade parental, inseguranças na educação dos filhos, dificuldades na imposição de limites e os impactos das transformações sociais contemporâneas são alguns dos temas abordados.
Questões como a construção de limites com afeto, a diferença entre autoridade e autoritarismo, os efeitos do uso excessivo da tecnologia na infância, além dos riscos da patologização e da medicalização precoce das crianças, estão entre os assuntos que Mônica considera mais urgentes na atualidade.
Mais do que oferecer respostas prontas, o livro propõe um espaço de reflexão e acolhimento. Uma escrita profundamente atravessada pela experiência clínica e pela escuta de centenas de famílias ao longo dos anos.
Fora da vida profissional, Mônica é casada com Fernando, mãe de Fernanda e Luiz Fernando e avó de Aurora e Bernardo. Apaixonada por viagens, estudos, encontros com amigos e boas conversas, mantém viva a curiosidade pelas pessoas e pelas histórias que elas carregam.
Ao olhar para sua trajetória, Mônica resume o legado que deseja construir: ser lembrada como alguém que, por meio da escuta, do acolhimento e da orientação, contribuiu para tornar a vida de muitas famílias mais criativa, consciente e expansiva.
Rede Social:
@monicadonetto

