Anita Carvalho apresenta estudo inédito na Casa UBC com dados reveladores sobre o setor
Produzida desde 2017, em conjunto com o Laboratório de Economia Criativa da ESPM, a pesquisa traz, pela primeira vez, um recorte de gênero, além de informações sobre comissões, percentuais justos e a estrutura no mercado da música no Brasil; ao final do evento, Lu Carvalho comandou um pocket show
Produzida há dez anos pela pesquisadora e empresária Anita Carvalho, a 5ª edição da Pesquisa Empresariamento Artístico, feita em parceria com o Laboratório de Economia Criativa da ESPM, foi apresentada na Casa UBC (Rua do Rosário, 1, 11º andar, Centro, RJ), no dia 11 de maio. Anita Carvalho, que também é criadora da Music Rio Academy, compartilhou o relatório da pesquisa, incluindo um recorte de gênero inédito, o primeiro da série histórica.
Na sequência, aconteceu um breve debate com o público presente. E para encerrar, Lu Carvalho – que vem conduzindo o projeto Beth 80, em homenagem aos 80 anos da eterna Beth Carvalho, sua tia – realizou um pocket show acompanhada de Igor Souza e Matheus Pessanha. Além da ESPM e UBC, também são parceiros desta edição da pesquisa, a STRM, a Semana Internacional da Música – SIM São Paulo, o Music Rio Academy, o IATEC, a OnStage Exp e o projeto Música, Copyright e Tecnologia.
Recorte de gênero inédito mostra que nenhuma artista mulher declarou faturar acima de R$10 mil por mês
A 5ª edição da Pesquisa Empresariamento Artístico traz alguns dados reveladores sobre o setor. Se a disputa sobre comissões sempre revelou um impasse entre empresários e artistas, o recorte de gênero – inédito nesta edição – expõe uma desigualdade ainda mais profunda. Entre os artistas homens da amostra, 17,2% declararam faturar acima de R$10 mil mensais com shows. Entre as artistas mulheres, esse percentual é zero.
A diferença não para aí. Empresárias mulheres representam 44% do total de empresários e produtores entrevistados, mas concentram-se no modelo independente, onde mais da metade (51,1%) é feminina. Nos escritórios, que faturam significativamente mais, a presença feminina cai para 37%. A distância de escala é expressiva: 71,4% dos escritórios faturam acima de R$20 mil mensais, contra 36,4% das independentes.
“O modelo independente parece ser a porta de entrada predominante das mulheres no empresariamento artístico, mas é também o modelo de menor faturamento”, observa Anita Carvalho.
Artistas demonstram o menor índice de satisfação desde o início da pesquisa
Enquanto o mercado de shows ao vivo se recupera, os artistas estão cada vez menos satisfeitos com suas carreiras. A nota média em 2025 é de 2,48 em uma escala de 5, o pior resultado desde o início da pesquisa, em 2017. Em 2021, era 2,9.
A queda é consistente em ambos os grupos: artistas com representação profissional recuaram de 3,7 para 3,2; sem empresária, de 3,0 para 2,38. O dado é ainda mais revelador quando se considera o perfil dos respondentes: profissionais com tempo médio de carreira entre 10 e 30 anos.
Parte da insatisfação pode ter raízes econômicas: 50% dos artistas declaram que sua principal fonte de renda é uma atividade completamente alheia à música: emprego formal, outra profissão, aposentadoria. Em 2019, os shows ao vivo eram a principal fonte de renda para 57% dos artistas. Em 2025, esse percentual caiu para 21,4%.
Ter empresariamento faz diferença, mas poucos artistas têm:
A pesquisa também investigou, pela primeira vez, o impacto concreto da representação profissional na trajetória dos artistas. Os resultados são consistentes: artistas com empresários apresentam maior satisfação (3,2 contra 2,38), maior volume de shows (todos realizam ao menos um show por mês, enquanto 47% dos artistas sem empresária realizam menos de um show remunerado mensal) e mais acesso a editais de fomento.
O problema é que apenas 12,5% dos artistas da amostra têm representação profissional. E encontrar um empresário ou produtor aparece empatado como a segunda maior dificuldade relatada pelos artistas, atrás apenas da dificuldade de investir financeiramente no próprio projeto.
A comissão é justa? Para artistas, não:
Empresários querem receber mais. Artistas querem pagar menos. E a distância entre os dois lados só aumentou ao longo da série histórica. O estudo mostra que empresários artísticos cobram, em média, 25,5% de comissão sobre as receitas dos artistas, enquanto consideram que o percentual justo seria de 32%. Do lado dos artistas, a percepção vai na direção oposta. O percentual considerado justo para pagar caiu de 28% em 2021 para 23,7% em 2025 – abaixo, portanto, do que os próprios empresários já cobram.
O dado mais curioso, no entanto, é que os artistas com representação profissional parecem mais resignados com o impasse: o percentual que consideram justo (23,7%) está bem próximo do que efetivamente pagam (22%). São os empresários que carregam o maior sentimento de subvalorização. E a pesquisa sugere que esse sentimento não é passageiro. Em todas as edições desde 2021, o gap entre o que cobram e o que consideram justo se manteve, sem sinais de convergência.
Realizado entre fevereiro e março de 2026 com 198 profissionais do mercado musical brasileiro, o levantamento é um importante instrumento de avaliação do setor e permite acompanhar mudanças e permanências:
“Pouquíssimos estudos no mercado da música conseguem acumular dados de forma contínua. Isso nos permite observar transformações reais e desafios que persistem”, afirma Anita Carvalho.
O conteúdo completo já está disponível em anitacarvalho.com.br.
SOBRE ANITA CARVALHO:
Anita Carvalho é empresária artística, estrategista e pesquisadora da economia criativa. Mestre e doutoranda em Economia Criativa pela ESPM, é graduada em Administração com foco em Marketing e Gestão do Entretenimento, além de pós-graduanda em Web Intelligence and Data Analysis pela COPPE-UFRJ. Sócia da Música & Mídia Produções desde 2001, atua há mais de 30 anos no mercado da música, com forte atuação em gestão de carreiras e desenvolvimento de projetos culturais. Ao longo de sua trajetória, esteve à frente da carreira de artistas como Diogo Nogueira (18 anos) e Beth Carvalho (15 anos), além de colaborar com nomes como Ivan Lins, Barão Vermelho, Baby e Pepeu, Paula Lima e Jorge Vercillo.
Foi responsável pela gestão de dezenas de projetos culturais e pela produção de centenas de shows, incluindo turnês nacionais e internacionais. Entre seus trabalhos recentes, destaca-se a produção do projeto “Jorge Aragão – 50 Anos de Poesia”, uma turnê de grande impacto cultural, social e ambiental realizada em 2025.É pesquisadora do mercado de empresariamento artístico e integrante do Laboratório de Economia Criativa da ESPM, onde publicou relatórios sobre o setor (2017, 2019, 2021 e 2023).
Atua como consultora em planejamento estratégico musical, tendo atendido mais de 200 artistas, empresários e empresas do setor. Participou do programa Estrela da Casa, da TV Globo, ampliando sua atuação como especialista em música e indústria criativa em ambientes de grande visibilidade. Apresenta o podcast Criativamente, na Rádio MIX Rio FM, dedicado a reflexões sobre economia criativa e mercado cultural.

