Movimento Independente Mães de Maio e Iniciativa Negra são as organizações parceiras que vão gerir o espaço e os atendimentos
Agenda marca ação conjunta de dois ministérios, o dos Direitos Humanos e Cidadania e o da Justiça e Segurança Pública
Centro de Memória às Vítimas da Violência de Estado (CMVV) e o Centro de Acesso a Direitos e Inclusão Social (Cais) Mães por Direitos integram política nacional de memória, reparação, prevenção e cuidado a familiares de vítimas da violência de Estado — Cais é fruto de parceria técnica entre a Universidade Federal de São Paulo (Unifesp) e a Secretaria Nacional de Políticas sobre Drogas e Gestão de Ativos (SENAD)
Para o dia 4 de março , está marcado o anúncio da criação do Centro de Memória às Vítimas da Violência de Estado (CMVV) e do Centro de Acesso a Direitos e Inclusão Social (Cais) Mães por Direitos . Será o primeiro equipamento público voltado à memória, à verdade, à reparação, à prevenção e ao acolhimento de familiares atingidos pela letalidade estatal. O lançamento será feito durante evento, em Santos, no litoral paulista, com a presença da ministra dos Direitos Humanos e da Cidadania (MDHC) Macaé Evaristo , e de Marta Machado , titular da Secretária Nacional de Políticas sobre Drogas e Gestão de Ativos (Senad), ao lado de representantes do Movimento Independente Mães de Maio e da Iniciativa Negra , organizações responsáveis por implementar e gerir o inédito espaço de memória, prevenção e cuidado.
O projeto tem o objetivo de preservar a memória e acolher familiares das pessoas atingidas pela violência de Estado, buscando impulsionar políticas públicas que enfrentem as violações sistemáticas de direitos. A colaboração entre as organizações garantirá que o espaço seja construído a partir das vozes e experiências das vítimas e de suas famílias, promovendo um olhar crítico sobre a atuação do Estado e as consequências da violência institucional.
A ministra dos Direitos Humanos e Cidadania, Macaé Evaristo ressalta o pioneirismo da iniciativa. “Este projeto representa mais do que a recuperação de um imóvel público. Ele expressa o compromisso do governo federal com a memória, a verdade e a reparação simbólica às vítimas da violência de Estado e às famílias que transformaram o luto em luta por justiça.”
O edifício que abrigará o centro entrará em reforma, para ser aberto ao público ainda no primeiro semestre de 2026.
“O lançamento do Centro de Memória das Vítimas da Violência de Estado, em parceria com o Cais Mães por Direitos, é um reflexo da forma como o governo brasileiro tem respondido às violências que atingem mães, familiares e comunidades. Estamos integrando memória, cuidado e acesso a direitos como pilares de uma política de reparação e prevenção ampliada. Essa é uma resposta às reivindicações históricas do Movimento Mães de Maio e um passo muito importante para consolidarmos uma política sobre drogas orientada pela dignidade, justiça e promoção da vida”, reforça a Secretária Nacional de Políticas sobre Drogas e Gestão de Ativos, Marta Machado .
A Baixada Santista foi escolhida como território-sede do CMVV por concentrar episódios emblemáticos de letalidade policial e chacinas. Medidas como as Operações Escudo e Verão, realizadas pelo governo do Estado de São Paulo entre 2023 e 2024, deixaram um saldo de ao menos 84 mortes. Durante os chamados Crimes de Maio de 2006, 564 pessoas foram mortas no Estado de São Paulo. Desse total, 115 homicídios aconteceram na Baixada Santista, conforme o relatório São Paulo sob Achaque: Corrupção, Crime Organizado e Violência Institucional em Maio de 2006, feito pela Clínica Internacional de Direitos Humanos/Harvard Law School e Justiça Global.
É neste ponto que a atuação do Movimento Independente Mães de Maio e da Iniciativa Negra converge. Santos é também a região de origem do Movimento Mães de Maio, ação pela qual Débora Maria da Silva, líder da organização, ativista , transformou seu luto em luta coletiva.
“O Movimento Independente Mães de Maio reivindica esse espaço específico para o cuidado das famílias das vítimas da violência de Estado há muito tempo. São pessoas que, assim como eu, merecem acolhimento, escuta e dignidade para seguir com a luta por direitos e para que nossos filhos e familiares vitimados não sejam esquecidos. Nossos filhos têm nome e sobrenome, e morrem como suspeitos. Perdemos várias mães ao longo desse caminho de luta para a depressão e para outras doenças que chegam através da dor e do sofrimento da perda, sem a assistência que agora será garantida por essa política inédita. Pleiteamos um atendimento humanizado e sem julgamentos, com a oferta de acompanhamento psicológico, jurídico e social, que possam minimizar o sofrimento das famílias. Essa ferramenta precisa ser perpetuada e é uma reparação para nós. Esse é um legado que o Movimento Independente Mães de Maio deixa nesse país, e esperamos conquistar muito mais. Ser pobre e negro não é crime, e nosso país precisa garantir essa reparação”, diz Débora.
Para a socióloga e cofundadora da Iniciativa Negra, Nathália Oliveira , este é um momento importante de reconhecimento do esforço de todos os envolvidos na luta por justiça racial e social no Brasil, mas sinaliza que o caminho ainda é longo. “A criação dessa política inédita é fruto da luta coletiva de diversos movimentos sociais que denunciam a falência do Estado democrático de direito, quando há o registro de morte pela mão do Estado. Há dez anos a Iniciativa Negra denuncia que a narrativa da guerra às drogas é usada como justificativa para o genocídio do povo negro, pobre e de favela. Para nós, a abertura do Centro, e a união de forças desses movimentos representam a possibilidade de uma política que reverta a prioridade das políticas de drogas, para que todos possam gozar do mesmo direito de cidadania. ”
Sobre Movimento Independente Mães de Maio
A Rede de Familiares de Vítimas dos Crimes de Maio de 2006 é uma rede de mães, familiares e amigos de vítimas da violência do Estado Brasileiro (principalmente da polícia), formada no estado de São Paulo a partir dos Crimes de Maio de 2006. Um dos principais frutos desta rede foi o surgimento, consolidação e repercussão do Movimento Independente Mães de Maio, que tem uma ampla atuação política na área dos direitos humanos.
Sobre a Iniciativa Negra – Dez anos
A Iniciativa Negra é uma organização da sociedade civil que atua na promoção da justiça racial, com foco em incidência política, advocacy, fomento criativo e produção de conhecimento. Desde 2015, articula ações nas áreas de política de drogas, direitos humanos, cultura, educação popular e economia viva, com destaque para experiências que partem de territórios negros com foco no desenvolvimento da sociedade civil organizada.
SERVIÇO
Anúncio do Centro de Memória às Vítimas da Violência de Estado e do Cais Mães por Direitos
Data: 04/03/2026 (quarta-feira)
Horário: das 15h às 18h30
Local: Grêmio Recreativo Cultural Academia de Samba Unidos da Zona Noroeste
Endereço: R. Prof. Francisco de Domênico, S/N – Areia Branca, Santos – SP
Evento fechado para convidados e imprensa
15h – 16h30
Apresentação do Centro de Memória das Vítimas de Violência de Estado
Macaé Evaristo – Ministra de Direitos Humanos e Cidadania
Marta Machado – Secretária Nacional de Políticas sobre Drogas e Gestão de Ativos
Débora Silva – Fundadora do Movimento Independente Mães de Maio
Nathália Oliveira- Fundadora da Iniciativa Negra
Dudu Ribeiro – Fundador da Iniciativa Negra
16h30 – 18h30
Atração musical – Escola de samba Unidos da Zona Noroeste e cantora Roberta Oliveira

