Multi-instrumentistas

Há pessoas que nascem com total facilidade em executar certas tarefas e as desempenhar de forma exemplar. Ter dom para alguma coisa e aprimorá-lo com o passar do tempo gera excelência. Afortunados são aqueles que têm vocação em fazer algo que amam e ainda conseguem viver (no sentido de remuneração) disso. No mundo da música vemos que há muita gente com técnica apurada e Capivarock falará hoje sobre alguns multi-instrumentistas.

A lista é imensa. Multi-instrumentista é aquela pessoa que não precisa ser exímia em tocar, mas que tenha aptidão para tocar vários instrumentos. Independente de quais sejam, podemos ver casos em que um grande pianista não consegue ter a mínima coordenação motora para tocar bateria. Por outro lado, um baixista poderia conseguir tocar instrumentos de sopro (temos o Flea do Red Hot Chili Peppers neste exato exemplo). Tudo é a predisposição que uma pessoa possa ter de nascença ou desenvolver uma habilidade com bastante prática. Em nossa terra natal sempre temos que incluir Hermeto Pascoal nesta lista. Conhecido pela execução de sons das mais variadas fontes, Hermeto possui quase 60 anos de carreira e desde sua infância começou a fazer experimentos criando instrumentos como um pífano feito através de um galho de abóbora para tocar para os pássaros. Na infância já tocava acordeon e pandeiro em forrós até se mudar para Recife e iniciar sua carreira no rádio. Junto com Sivuca, outro famoso multi-instrumentista brasileiro cujo principal instrumento era a sanfona, formaram o trio O Mundo Pegando Fogo. Mudou-se no final dos anos 50 para o Rio de Janeiro já como pianista em uma boate no hotel Excelsior. Nos anos 60, já radicado em São Paulo, priorizou os instrumentos de sopro tocando no grupo Som Quatro. No fim dos anos 60, foi para os Estados Unidos chegando a gravar duas músicas com Miles Davis e iniciou sua projeção internacional ao fazer parcerias com nomes renomados do Jazz e também participou do festival de Montreaux, na Suíça. No vídeo abaixo, aos 9 minutos e 20 segundos, veja a improvisação sonora sensacional de Hermeto Pascoal no programa “Um Café Lá em Casa”, onde Nelson Faria recebe seus convidados: https://www.youtube.com/watch?v=z-RGOxgbuzI

Abaixo Hermeto faz um “dueto” com seu piano em sua apresentação no Festival de Montreaux em 1979 –

James Paul McCartney, mais conhecido pelos seus dois últimos nomes, é um dos maiores músicos do planeta e dispensa apresentações. Sua trajetória mundialmente famosa iniciou-se como baixista dos Beatles e ali ele já mostrava sua faceta multi-instrumental gravando várias músicas da banda tocando outros instrumentos. Atacou no violão em músicas como “Michelle” e “Blackbird”, na guitarra com “Sgt. Peppers Lonely Hearts Club Band” e “Helter Skelter”, piano em “Let it Be” e “Lady Madonna”, bateria em “Back in the U.S.S.R.” e “Dear Prudence” sem falar em inúmeras canções em que fez voz principal. Seus trabalhos pós-Beatles incluem a banda Wings e sua carreira solo, que nas gravações McCartney também gravava todos os instrumentos – mesmo que dividindo com outros músicos. Até os dias de hoje, ele ainda reveza o baixo, violão, guitarra e piano em performances ao vivo comprovando sua versatilidade. Um momento registrado de suas facetas como multi-instrumentista pode ser visto no videoclipe da música “Coming Up”, de seu álbum solo McCartney II. Junto com sua esposa à época – Linda McCartney – ele atuava como se estivesse tocando todos os instrumentos porém caracterizado como outras pessoas, inclusive ele mesmo como baixista dos Beatles. A título de curiosidade, a banda deste vídeo foi apelidada de The Plastic Macs, nome escrito no bumbo criado como uma homenagem à banda pós-Beatles de John Lennon, a Plastic Ono Band. Mesmo sendo uma encenação, ele é capaz de tocar vários instrumentos em que ele representou no vídeo.

Faixa da bateria isolada em “Back in the U.S.S.R.”

 

Paul McCartney – “Coming Up”

Outro músico extremamente versátil que recentemente voltou à atividade é o ex-baterista da banda Genesis: Phil Collins. Iniciando sua carreira como ator mirim, iniciou sua carreira musical na banda Hickory que em seguida passou a se chamar Flaming Youth. Após participar do disco solo de George Harrison chamado All Things Must Pass, fez um teste para a o Genesis e conseguiu a vaga. Na década de 70, a banda de Rock Progressivo lançou vários discos e no início dos anos 80 Collins resolveu paralelizar uma carreira solo extremamente bem sucedida com músicas pop, além de participar de gravações e shows com artistas renomados da música como Led Zeppelin, Eric Clapton e Tears For Fears. Suas músicas também fizeram parte de trilhas sonoras, como a música “In The Air Tonight” que foi parte do filme Negócio Arriscado (Risky Business, 1983) com Tom Cruise e da hilária cena de Mike Tyson cantando no filme Se Beber Não Case (The Hangover, 2009). Collins ficou quatro anos afastado da música alegando problemas de saúde e iniciando o que chamou de “aposentadoria”, mas em 2015 assinou um contrato com a gravadora Warner para remasterizar seus álbuns solo.

Acústico Phil Collins

Tears For Fears – “Woman in Chains” (Phil Collins gravou a música mas não aparece no videoclipe)

 

 Mike Tyson – “In The Air Tonight” (música de Phil Collins, cena do filme Se Beber Não Case – The Hangover, 2009)

No Rock contemporâneo, o amigo de 10 entre 10 celebridades mundiais se chama Dave Grohl. De um passado imerso no Hardcore Punk da costa leste dos Estados Unidos em meados dos anos 80 até ser chamado para compor a banda Nirvana, Grohl compunha músicas e as guardava para quem sabe um dia eternizar em alguma gravação. O início de sua veia multi-instrumentista não foi o Foo Fighters, como todos imaginam. Seu primeiro lançamento foi uma fita cassete com o pseudônimo de “Late!” (atrasado, em inglês) cujo álbum-demo se chamava Pocketwatch lançado em 1992. Porém as músicas foram gravadas enquanto ele já era baterista do Nirvana, nos intervalos da turnê. Neste álbum ele tocou todos os instrumentos na gravação apenas de forma experimental, porém houve colaboração de autoria de outros artistas. Dois anos depois, Grohl recuperou ânimo após 6 meses de hiato e gravou e compôs sozinho 12 músicas no intuito de recuperar-se da perda do vocalista do Nirvana. Após passar para amigos cópias de fitas cassete sob o nome de Foo Fighters, o álbum homônimo (lançado em 1995) chegou à gravadora Capitol que resolveu distribuí-lo e assim Grohl precisou recrutar integrantes para efetivamente formar uma banda. Dave Grohl se fixou como vocalista e guitarrista do Foo Fighters, porém no segundo álbum do Foo Fighters ele gravou novamente as baterias numa polêmica envolvendo o primeiro baterista da banda, William Goldsmith, que pode ser vista no documentário Back and Forth (2011). Segundo Grohl, as gravações de bateria de Goldsmith não soavam como ele imaginava em sua mente quando ele compunha as músicas e as regravou sem avisá-lo, o que culminou a saída de Goldsmith do Foo Fighters. Alguns anos mais tarde ele voltou a gravar como baterista, desta vez na banda Queens of The Stone Age no álbum Songs For The Deaf de 2002.

Late! – “Pocketwatch”

 Foo Fighters (1995)

Além de ser apenas uma “brincadeira”, tocar vários instrumentos pode ser prazeroso, desafiante e estimulante. Para alguns é a fórmula do sucesso e é sempre interessante ver pessoas que conseguem ter facilidade no aprendizado de vários instrumentos musicais. Quais são seus multi-instrumentistas favoritos? 🙂

Por Fellipe Madureira

Na vitrola: Anthrax – “Stomp 442”

 

3 comentários em “Multi-instrumentistas

  • 17 de novembro de 2017 em 09:40
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    Meu multi-instrumentista favorito chama-se Fellipe Madureira 🙂

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  • 9 de dezembro de 2017 em 11:16
    Permalink

    Faltou tu citar o Prince ! Muitos álbuns que ele lançou, ele tocou todos os instrumentos. Não sei citar um multiinstrumentista favorito, mas desses que vc citou, curto muito o Dave Grohl e o Paul McCartney, essa música Coming Up é sensacional !

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