Perspectivas do Sul Global em ocupação cultural em Belém durante a COP30 traz crítica à mineração
De 10 a 17 de novembro, o circuito cultural chega ao Museu de Arte de Belém e ao Pavilhão de Cultura da Zona Azul na COP30, além de vivência criativa na Casa Janeraka
A ocupação cultural “VAZIOsobreTERRA: cocriar como rota de fuga” (“Absent Matters: co-creating as an emergency exit”), vinda da África do Sul, chega à COP30 para debater o impacto que a mineração tem na crise climática e na vida das pessoas. De 10 a 17 de novembro, a iniciativa com cerca de 35 artistas, em sua maioria do Sul Global, ocupa a cidade de Belém (PA) com uma exposição no Museu de Arte de Belém (MABE), um Intercâmbio Cultural com a Casa Constelar Ancestral Janeraka e uma ativação no Pavilhão de Entretenimento e Cultura na Zona Azul da COP30, espaço onde ocorrem as negociações oficiais da Cúpula de Líderes.
Em uma COP onde o discurso sobre a transição energética e seus desafios está intimamente ligado à indústria da mineração, particularmente à extração de minerais raros, é crucial e urgente destacar o papel da mineração no atual colapso ambiental e examinar outros caminhos para “transições justas” e por ecossistemas vivos.
Apresentando artistas de mais de dez países, “VAZIOsobreTERRA” é um convite ao diálogo estético, político e sensorial de perspectivas e vivências plurais e descentralizadas.
Diante de uma crise ambiental que ameaça, de forma desigual, mas toda a humanidade, o projeto propõe uma abordagem que reconheça e abrace os conhecimento de resistência e regeneração das comunidades mais afetadas pela mineração e colapso climático – mulhers, população negra, povos da floresta, comunidade LGBTQIA+, zonas rurais, etc.
O projeto é uma ativação da New Futures Art Collaborative, programa de residência artística iniciado na África do Sul em parceria com artistas e coletivos brasileiros. Em Belém, o projeto estabelece uma aproximação do diálogo entre os contexto sul-americano, sul-africano e a COP30, além de se conectar com artistas e comunidades locais.
A ocupação é uma realização do Coletivo WEBS – Tecendo Sistemas Educacionais Biomiméticos, da Iniciativa da Mudança US (IoFC USA) e da ART AFRICA, com o apoio do MABE, do Instituto Janeraka e do Pavilhão de Cultura + Entretenimento, e conta com a colaboração artística da discoderiva e do Instituto Mundos. A Guerrand Hermes Foundation for Peace (GHPF) é cofinanciadora do projeto. “VAZIOsobreTERRA” une-se ao movimento de “mutirão global” para criar soluções baseadas na cultura para o discurso, as políticas e os acordos sobre a crise climática.
A ocupação cultural e exposição “VAZIOsobreTERRA” se desenvolve em dois eixos centrais ao longo da programação.
1. Crítica à narrativa do “Futuro Sem Fim”
Desafiando a crença de que o avanço tecnológico garante progresso infinito, uma narrativa que alimenta a extração implacável de minerais raros em nome de uma suposta inovação, aqui, centraliza-se as vidas, os conflitos e as lutas que foram invisibilizados ou violentamente soterrados pela lógica extrativista — lutas pela terra, pela saúde e pelo próprio direito à vida.
2. Regeneração
Em um mundo onde o capitalismo global coloca a propriedade e a extração acima da vida, o projeto questiona: como podemos retornar à Terra e uns aos outros? Não de forma nostálgica, mas radicalmente. Como podemos reparar os imaginários diante do que foi explorado? E principalmente, o que a cultura e as populações locais têm a ensinar sobre resistência, colaborações e coexistência em outras humanidades possíveis para além da exploração e desigualdades.
Afinal, na raiz da crise climática estão narrativas de hierarquização que justificam a opressão e exploração de territórios, povos e espécies, levando à destruição sistemática da relação entre os humanos e a Terra. “Para reparar essa fratura, é preciso semear imaginários vivos, soluções baseadas na cultura que sejam capazes de valorizar a pluralidade de saberes para a construção de um futuro sustentado por cosmovisões colaborativas”, ressalta Isadora Canela, cofundadora do Collective webs e uma das idealizadoras do circuito.
Tanto o circuito quanto a comunicação foram pensados como contra-narrativas, ferramentas de colaboração e escuta que cria vínculos, mobiliza redes e semeia imaginários que ecoam. Como explica Juji, o circuito trata de “co-criar espaços para que as vozes e os conhecimentos do circuito ressoem como imaginários de sobrevivência e sementes de resistência à lógica da extração”.
Exposição
No centro de Belém, dentro do histórico Palácio Antônio Lemos, onde hoje funciona o MABE, estará aberta à visitação “VAZIOsobreTERRA: cocriar como rota de fuga”. “Reunindo cerca de 35 artistas locais, nacionais e globais, a exposição cria ligações entre geografias, conectando corpos e terras, sistemas de extração, como a mineração, e opressão, como o racismo e o patriarcado, trazendo estratégias de reparação e ecologias cuier“explica Elsa Cuissard, produtora criativa internacional e co idealizadora do circuito.
A abertura da exposição, no dia 10 de novembro, contará com a exibição de “Rejeito“ (2003), um documentário de Pedro de Filippis que acompanha o perigo iminente de rompimento das inúmeras barragens ainda presentes na paisagem de Minas Gerais após soterramentos em Brumadinho e Mariana, além de performances e outras ações artísticas. Na ocasião, também painéis de conversas com as deputadas Duda Salabert e Celia Xakriabá, Izabely do Movimento pela Soberania Popular na Mineração (MAM) e artistas brasileiros e africanos. A mostra fica em cartaz até 9 de fevereiro, com entrada gratuita, de terça à sexta das 9h às 14h, e aos domingos das 9h às 13h.
Os artistas participantes da mostra são Agnes Mensah Onumah (Ghana), Ana Elise Novais (Brasil), Anaïs Karenin (Brasil), Barbara Marcel (Brasil),Bekezela Mabena (Zimbawe), Chico Ribeiro (Brasil), EvNa (Brasil), Italo Almeida (Brasil), Isis Medeiros (Brasil), Juji (Brasil), Kenneth Ndumiso Shandu (South Africa), Kirimi Thuranira (Kenya), Lúcia Gomes (Brasil), Lukas Sterzenbach (Germany), Maleeha Bukhari (Pakistan), Morgana Mafra (Brasil), Maruee Pahuja (India), Nina Matos (Brasil), Nelson D (Brasil), Nilra Zoraloglu (Turkey), Ngugi Waweru( Kenya), Paula Sampaio (Brasil), Parimah Avani (Iran), Petchó Silveira (Brasil), Rebecca Bina (Brasil/UK), Riaz Ali (Pakistan); Sanchris Santos (Brasil), Shirley Krenak (Brasil),Sylvia Noronha (Brasil), Tatenda Mapisire (Zimbawe) e Yaka Hunikuin (Brasil).
Além disso, participam os coletivos Amasonic (Netherlands), Instituto Mundos (Brasil), Janeraka Institute (Brasil), Discoderiva (Brasil) e Coletivo Webs (Global Collaborations).
Intercâmbio Cultural
A Casa de Acolhimento para Povos da Floresta em Trânsito, mais conhecida como Casa Constelar Ancestral Janeraka, na zona urbana de Belém, será a morada de 15 artistas e convidados do “VAZIOsobreTERRA” e cerca de dez lideranças indígenas, de 3 a 10 de novembro, para uma troca de experiências interculturais criativas, como as práticas de cerâmica ancestral e contemporânea, pintura sagrada e esculturas africanas. “Janeraka”, na língua Awaete, significa “nem minha, nem sua, nossa casa”.
Ativação na Zona Azul
No espaço de negociações da COP30, conhecida como Zona Azul, “VAZIOsobreTERRA” contará com intervenções artísticas que propõem uma reflexão sobre os impactos da mineração no Brasil e em outros países onde a prática ainda é protagonista na economia. “Trata-se de um lugar estratégico, onde o futuro das ações contra as mudanças climáticas são definidos. Aqui, esperamos que a arte e a cultura contribuam para que os debates e decisões sejam transformadores”, completa Canela.
SERVIÇO
VAZIOsobreTERRA | ocupação cultural
10 a 17 de novembro
Belém, PA
Acesso gratuito
VAZIOsobreTERRA Exposição | Museu de Arte de Belém
Abertura no dia 10/11
Até 09 de fevereiro de 2026
Praça Dom Pedro II, 2 – Cidade Velha, Belém – PA
Funcionamento: terça à sexta – 9h às 14h | domingos – 9h às 13h
Ativação na Zona Azul COP30
15 de novembro
Acesso restrito a participantes credenciados da zona azul
Sobre Isadora Canela — Isadora Canela é artivista de Brumadinho, MG que se dedica a pesquisar sobre decolonização do pensamento, da terra, dos povos e dos corpos no contexto do Capitaloceno, especialmente focada nas consequências do extrativismo mineral vivida em seu dia a dia, buscando semear outros imaginários possíveis a partir da perspectiva do encontro e colaboração. Em 2023 co-fundou o Coletivo Webs trabalhando na interseção entre educação, arte e meio ambiente. Em 2024 ingressou no programa de PhD em Justiça Social com foco em Artes e justiça socioambiental na University Wales Trinity Saint David e concluiu em no mesmo ano o curso de Narrativas Públicas pela Universidade de Harvard que foi selecionada com bolsa. Suas obras e poética brincam com elementos orgânicos, tecnológicos e industriais em busca de reconciliar narrativas divisionistas. Como artista, pesquisadora e ativista desenvolve projetos entre o sul e norte globais que reivindicam a horizontalidade e a criação coletiva para um futuro compartilhado além das fronteiras físicas e metafóricas com colaborações interculturais e interespécies. Recentemente participou de exposições, conferências e residências artísticas em Berlim, Munique, Croácia, São Paulo, África do Sul, entre outros, com destaque para a participação na Documenta Summerschool em Kassel 2022. Idealizou junto ao Instituto Camila e Luiz Taliberti a exposição, “Paisagens Mineradas”, a qual assina a co-curadoria e endossa o grupo de 12 artistas que apresentam suas obras. www.isadoracanela.com/pt.
Sobre Elsa Cuissard – Pesquisadora interdisciplinar e organizadora de projetos sediada em Berlim, o trabalho de Elsa explora as ecologias cuir e o potencial transformador dos espaços educacionais e artísticos na formação de imaginários e na resposta ao atual colapso ambiental.
É cofundadora da Collective Webs, organização cujos projetos artísticos desafiam os binarismos entre natureza e cultura, arte e ciência, e questionam as narrativas, relações de poder e modos de existência que moldam nossa relação com o “outro” — humano e mais-que-humano.
Nos últimos anos, Elsa tem colaborado com exposições, conferências e residências artísticas na África do Sul, Croácia, França, Alemanha e Brasil. Seu trabalho inclui colaborações com o projeto Exploring Visual Cultures, onde publicou recentemente um artigo; com a Iniciativa de Diálogo Intercultural da UNESCO, na qual coassinou um estudo sobre o potencial das artes como metodologias de cura coletiva; e com a Initiatives of Change USA, coorganizando a residência artística New Futures Art Collaborative, em Joanesburgo (2024). Também coorganizou duas residências artísticas em Berlim (2023 e 2024), em parceria com a Haus der Statistik e a Berlin Refugee Week.
Sobre Juji Capanema – Juji (ela,elu) é artista visual, comunicadora e pesquisadora brasileira cujo trabalho investiga impacto socioambiental e identidade. Como pessoa neuroqueer do Sul Global, traz uma perspectiva decolonial para sua prática. Influenciada por sua herança rural no cerrado de Minas Gerais e por uma visão biomimética, Juji se dedica à micro-regeneração como forma de reimaginar a política da reparação. Se dedica a coletivos como o Discoderiva, em São Paulo, e o coletivo WEBS em Berlim (Weaving Educational Biomimetic Systems). Como comunicadora visual, trabalhou em projetos como Global Healing Alliance da UNESCO, SOS Amazônia e campanhas de impacto político-sociais.
Sobre Nina Matos – Artista visual do Pará, curadora e gestora cultural. Trabalha principalmente com pintura, utilizando a apropriação e reinterpretação de imagens pré-existentes, especialmente retratos, para explorar as relações humanas. Em trabalhos recentes, desenvolve composições digitais com intervenções pictóricas que abordam a identidade, a condição humana e a crítica social, utilizando diversos meios de comunicação. É formada em Artes Visuais pela UFPA e seus trabalhos integram coleções institucionais e particulares, com participação em exposições nacionais e internacionais. Trabalhou em instituições como o Museu de Arte de Belém (MABE), Galeria Municipal e Museu Casa das Onze Janelas, e criou o Prêmio SIM (2007–2010). Ocupou a cadeira de Artes Visuais na Comissão Nacional de Incentivo à Cultura (CNIC) do Ministério da Cultura (MINC) (2010-2014) e atualmente é Curadora Geral do MABE (2023–2025), além de realizar trabalhos curatoriais independentes, como a Arte Pará 2024.
Sobre o Coletivo WEBS (Tecendo Sistemas Educacionais Biomiméticos) — Coletivo global inspirado em espécies que praticam a sustentabilidade muito antes dos humanos. Por meio da biomimética, o coletivo reencarna práticas ancestrais de sustentação da vida para desafiar narrativas dominantes e sistemas insustentáveis de exploração. Enraizada na educação, na micropolítica e na cura espiritual, cultiva espaços horizontais e participativos para refletir, aprender, desaprender e cocriar novos modos de existir. Seus projetos artísticos e educativos se fundamentam em metodologias decoloniais e plurais, concebidas para reimaginar futuros moldados pela reciprocidade e pelo cuidado mútuo entre pessoas, espécies e ecossistemas. Saiba mais em collectivewebs.com.
Sobre a Initiatives of Change US — Instituição norte-americana que trabalha com líderes comunitários, ativistas, agências governamentais, instituições educacionais, organizações sem fins lucrativos e setor empresarial para oferecer oportunidades mais inclusivas pelo mundo. Saiba mais em: us.iofc.org.

