Projeto revela às novas gerações 12 faixas extraídas de discos do tradicional grupo baiano, entre as quais o clássico Homem Nagô. Produção é de Mario Caldato Jr. e Kassin
O coletivo Pra Gira Girar estreia, em 30 de outubro, seu primeiro LP, homônimo, Pra Gira Girar: uma celebração a Os Tincoãs. O lançamento reúne 12 faixas do repertório dos Tincoãs, trio afro-baiano que passou por diferentes formações desde sua fundação, ainda na década de 1960. Concebido inicialmente para ser apenas uma homenagem executada ao vivo, o projeto em questão parte de um desejo de aproximar o público contemporâneo da obra do grupo, consolidada como uma das maiores e mais cultuadas referências para a música popular brasileira. Ouça aqui.
Além de Álvaro Lancellotti (voz), integram o núcleo central do projeto Alan de Deus (voz), Michele Leal (voz) e Pedro Costa (guitarra). Tocam na gravação ainda Kassin (baixo e coprodução), Anna Magalhães (percussão), Diogo Gomes (trompete) e Zé Manoel (piano e voz). Zero Awá (in memorian), por sua vez também responsável pela percussão, completa a ficha técnica, formando uma obra cuja concepção se deu ao longo de um ano e forma, no avançar das músicas, uma narrativa marcada pelos encontros.
Entre diferentes vozes, períodos da trajetória d’Os Tincoãs e gerações de ouvintes que se entrelaçam, os registros revelam a existência de canções em movimento, que se transformam a cada nova escuta a fim de encontrar, no presente, possibilidades outras de existência. “Esse disco é uma consequência do show, não tínhamos nada planejado. No entanto, entendemos que essa obra era riquíssima e pouca gente viu Os Tincoãs em cena. Eles não fizeram tantas aparições como banda e também pertencem a uma geração muito antiga. Houve, então, uma vontade muito genuína de reapresentá-los“, explica Lancellotti.
A resposta ao espetáculo, que passou inicialmente por São Paulo e Rio de Janeiro com ingressos esgotados, foi o que levou o produtor Mario Caldato Jr. e a diretora artística Samantha Caldato, responsáveis pelo selo independente Amor In Sound, a proporem uma gravação. Realizada no estúdio de Kassin, ela tem coprodução assinada pelo próprio baixista em parceria com Caldato Jr., também autor da mixagem.
“Somos todos grandes admiradores d’Os Tincoãs. Fui assistir ao primeiro show do Pra Gira Girar e, de repente, me vi convidado a tocar. Saí da plateia em direção ao centro da roda, fui de espectador a participante. E, como um todo, foi nesse espírito de encontro que essas regravações aconteceram, feitas em um ambiente de festa, alegria e celebração. Está aqui a essência, a alma do disco”, conta o baixista e produtor.
Os dois primeiros singles, Atabaque Chora e Deixa a Gira Girar, lançados respectivamente em outubro e novembro de 2025, pavimentaram um caminho para as faixas que vem a seguir — todas elas munidas de uma musicalidade que reverbera saberes, percursos e fios invisíveis, transcendentes do tempo. A fim de preservar a aura dos Tincoãs, as vozes e instrumentos empregados no projeto Pra Gira Girar cantam e convocam para a dança com expectativa de cura. “Conceitualmente, a nossa ideia vai ao encontro do título escolhido, derivado da canção Deixa a Gira Girar. Queremos resgatar essa ideia de movimento, como se o LP pudesse fazer algo girar, desatando um processo de revelação que se dá, justamente, na decisão de cantar, de celebrar“, explicam, conjuntamente, os integrantes.
A ideia de movimento, ademais, extrapola a própria música. Para os artistas, ela também se relaciona a um processo mais amplo de reconexão com a ancestralidade, que ganhou força no Brasil ao longo da última década. “As pessoas passaram a buscar suas origens, a se descobrir para além de um batismo, de uma identidade que muitas vezes foi imposta ou limitada“, afirma Lancellotti. Nesse percurso, o repertório aparece como espaço de reencontro com tradições afro-brasileiras e com manifestações culturais atravessadas pela espiritualidade e pelo culto aos orixás — temas eternizados pelos Tincoãs, pioneiros há mais de 6 décadas.
Essa retomada se revela ainda na renovação de vínculos com o samba, algo que, conforme analisa o coletivo, é convidativa, e de maneira cada vez mais explícita, a estabelecer uma relação com as matrizes. “Existe uma afirmação, uma coragem de falar sobre isso, de não ser mais um macumbeiro escondido“, diz Álvaro. É nesse movimento de autoreconhecimento que Pra Gira Girar encontra um novo sentido. Trata-se de um disco que não pretende apenas recuperar parte de um cancioneiro. A intenção é, igualmente, recolocá-lo em circulação, permitindo que orbite diferentes gerações, corpos, vozes e formas de escuta.
O recorte encontra eco, por exemplo, em faixas como Salmo e Cordeiro de Nanã, nas quais o eu lírico atravessa a experiência histórica de opressão com o desejo de rejeitar o papel de submisso. Aqui, transforma-se o silêncio em força, afirmação e oração. As presenças de Oxóssi — orixá associado à caça, às florestas e à fartura, bem como ao conhecimento — e Obaluaê — por sua vez, orixá da terra, da cura e das doenças, dos ciclos de transformação entre a vida e a morte — acabam por se manifestar na sexta e na décima segunda faixas do álbum. Isto é, posicionam-se as divindades na metade e no fim dos ciclos. Só depois é que se abre passagem para o Homem Nagô. Este clássico foi o escolhido para ser a nova faixa de trabalho do LP, funcionando como uma terceira porta de entrada para o universo de Pra Gira Girar. Testemunha-se uma imensa rede músico-conceitual sendo tecida, sem previsão de fim.
“Procuramos ser muito fiéis a essa obra, prezando por uma seriedade e uma dedicação que nos levou a cantar da mesma forma como Os Tincoãs cantavam. Tivemos um cuidado especial com a maneira como as vozes se encontravam e, também, com a construção da banda“, contam Michele Leal e Pedro Costa, guias do processo de adaptação de canto. Nesse ínterim, destaca-se o trabalho de Zero Awá (também conhecido como Zero Telles), que se encantou em 2025, antes do lançamento do LP. Mais do que nunca, sua participação adquire um lugar central, sobretudo, pela elaboração dos arranjos de percussão que ajudam a definir e moldar a identidade sonora do novo projeto. O disco está dedicado ao músico.
As águas ganham tração no lado B, em uma sequência formada por Sereia, Lamento das Águas, Na Beira do Mar e A Força de Jurema. As quatro faixas se aproximam de temas como fé, proteção, ancestralidade e cura, recorrentes nas tradições afro-diaspóricas evocadas pelos Tincoãs. Ao revisitá-las, a partir de uma perspectiva contemporânea, Pra Gira Girar nos convida a acessar sonoridades únicas, ecoando o que escreveu Adelzon Alves, produtor do grupo original. Para ele, sorte têm aqueles que “sabem que os rios cantam, homens de todos os cantos do planeta que sabem ouvir o doce marulho de suas águas desde as pequenas nascentes no alto ou no pé das serras, suas cachoeiras retas e curvas, muitas vezes em belos duetos com os ventos e a passarada“. Ouvi-los agora, nas vozes de Pra Gira Girar, é mergulhar em mistérios e deles extrair um frescor de ideias, novos conceitos.
Toda essa musicalidade poderá ser vista outra vez ao longo do mês de novembro, quando Pra Gira Girar ocupa novamente os palcos do Brasil e da Europa. Nas apresentações marcadas para ocorrer em cidades como Lisboa, Amsterdam e Madrid, além de Salvador e Rio de Janeiro, o grupo virá a público usando figurinos de Dani Mascarenhas, a mesma responsável por vestir Mateus Aleluia. “Para mim, assinar os figurinos de Pra Gira Girar é me conectar com a Bahia e com a cidade de Cachoeira, de onde vem Os Tincoãs e onde vivi a infância ao lado do meu avô, um homem negro retinto. Ele foi uma grande referência estética para mim, para o meu processo criativo“, diz a estilista.
Em cena, as roupas ocupam um papel central na construção visual do espetáculo, contribuindo na contação da história do projeto para além daquilo que se vê, do que se ouve. “As cores, texturas, linhas, formas e volumes transmitem uma mensagem imagética que ultrapassa o palco e interfere na maneira como esse momento será percebido durante e depois do show“, explica Mascarenhas. Pensado como uma forma de comunicação não verbal, o figurino parte da subjetividade para ganhar materialidade e sintetizar, em elementos visuais, aquilo que o projeto pretende comunicar.
“É a partir desse lugar que estamos construindo, pensando em como o figurino pode trazer uma dimensão estética e visual para este momento do Pra Gira Girar. Poder contribuir com o projeto através da minha pesquisa, do meu olhar criativo que é muito atravessado por essa experiência que me constitui como indivíduo que nasce e cresce no sertão baiano, é enriquecedor. Tal qual ouvir essas canções, mesmo tanto tempo depois“, diz.
Confira a agenda completa:
1º de novembro @ Lisboa, Portugal | BOTA
6 de novembro @ Utrecht, Holanda | LE GUESS WHO? FESTIVAL
7 de novembro @ Amsterdam, Holanda | MUNGANGA
20, 21 e 22 de novembro @ Salvador, Brasil | CAIXA CULTURAL
27 de novembro @ Rio de Janeiro, Brasil | MANOUCHE
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SOBRE O PROJETO
O projeto Pra Gira Girar tem concepção artística de Álvaro Lancellotti e Julianna Sá, e celebra a obra do trio baiano Os Tincoãs, que entre as décadas de 1960 e 1970, lançou quatro discos. Em entrevista ao jornal O Globo, em 2017, o cantor e compositor Mateus Aleluia, um dos fundadores e membro de sua mais aclamada formação, afirmou que “o tempo é o que o próprio tempo determina“. A frase pode ser lida como uma posição que revela os caminhos trilhados pela própria música do grupo.
É que o tempo haveria de determinar um certo adormecimento da história construída pelos Tincoãs, encarregando-se, mais tarde, no agora, de remexer as bases dessas memórias por intermédio de músicos que, influenciados pelo trabalho do trio de Cachoeira, investigam caminhos outros para o afro-barroco içado pelo já mencionado Mateus Aleluia, por Dadinho e companhia.
É nesse contexto que Alan de Deus, Álvaro Lancellotti, Michele Leal e Zé Manoel se reuniram para redescobrir cantos possíveis para as bases estabelecidas, fincadas pelos Tincoãs. Sem tratar a música de origem africana com exotismos, ou ainda como se fosse mera matéria de pesquisa, eles mergulham em estudos de voz para revisitar sua obra, de modo a reconstruir arranjos vocais de extrema beleza. A eles, juntam-se também Pedro Costa (guitarra e direção geral), que rearranjou cada uma das faixas a fim de prezar pela manutenção de sua alma criativa e contribuir com a delicadeza da guitarra.
Na gravação do presente LP, completam o grupo ainda Diogo Gomes no trompete, Kassin no baixo e Ana Magalhães e Zero Awá (in memoriam) nas percussões (atabaque, congas, agogô, caxixi e ganzá). Juntos, eles redesenham paisagens harmônicas que releem, com vigor, canções dos quatro álbuns lançados pelos Tincoãs e que, sem qualquer modéstia, marcaram a história da MPB.
Pra Gira Girar: uma celebração a Os Tincoãs é uma festa musical anacrônica, que visa fincar raízes do passado no contemporâneo, neste pleno presente. O projeto já se apresentou em diversas casas do cenário cultural carioca, entre as quais se incluem Sesc Copacabana, Sesc Ramos, Teatro Ipanema e Manouche. Seu canto também já ocupou as dependências do MAR de Música, projeto organizado pelo Museu de Arte do Rio e do programa Sem Censura, exibido pela TV Brasil

