Com elenco 100% negro, o curta “Barulho” circula por festivais em um setor em que profissionais negros são menos de 35% da força de trabalho e 94% dos filmes com recursos federais têm direção branca
Um viúvo preso ao silêncio, dois vizinhos sambistas e uma disputa que só a música consegue resolver. Com essa premissa, o curta-metragem “Barulho”, dirigido por Karen Suzane, reúne um elenco inteiramente negro para falar de luto, amizade e do poder transformador do samba. Desde a estreia, em março, o filme já passou por mais de 15 eventos audiovisuais no Brasil e no exterior, entre eles o 37º Kinoforum – Festival Internacional de Curtas de São Paulo, o 3º FINCI – Festival Internacional de Nuevo Cine Independiente, na Argentina, e o 16º Fórum de Cinema de Moçambique. E se prepara para participar de outros dois eventos: o 2º Festival Diaspóricas de Cinema e Música Negra, entre 12 e 14 de novembro, em Goiás, e o Cineclube Lavradio 11, no dia 25 de novembro, no Rio de Janeiro.
O protagonista é Carlos Francisco, ator que se destacou como o pai da família de “Marte Um”, de Gabriel Martins, um dos títulos mais celebrados do cinema negro recente. Em “Barulho”, ele vive Humberto, um homem que se recolheu ao silêncio depois de perder a esposa e vê sua rotina ser abalada pela chegada dos novos vizinhos. Entre o peso do luto e a leveza do samba, começa uma batalha invisível que obriga o personagem a encarar a própria dor, até que a música prevalece.
Para o ator, ser um corpo negro na arte e ver a evolução da representatividade negra no cinema brasileiro é o reflexo de uma luta histórica que finalmente ganha novos caminhos. “O tamanho do país tem na distribuição um dos maiores obstáculos para o acesso ao cinema negro contemporâneo. Mas, aos quase 65 anos, com uma vida dedicada ao teatro e pouco mais de uma década de cinema, tenho tido o privilégio de interpretar personagens construídos fora dos estereótipos seculares. São pais, avós e negros velhos com suas corporeidades e modo singular de expressar a dor e as fragilidades, numa vida que exige manter-se no caminho, sem tempo para o descanso ou o choro. Sobra tempo pra música, que revigora e conecta aos ancestrais. Pais, avós e negros velhos capazes, apesar de tudo, de amar. Homens que só se abatem irreversivelmente quando da perda das companheiras, os grandes sustentáculos das comunidades negras: as matriarcas. É assim com Humberto, um viúvo que interpreto em “Barulho”. Como cidadão negro encontro ressonância nas obras dos jovens (e velhos) diretores e diretoras afrodescendentes que encontro no caminho, nos sets ou nas telas”, reflete o ator Carlos Francisco.
A atriz, poeta e escritora Elisa Lucinda faz uma participação especial. Ao lado dos veteranos estão Dan Ferreira, Vitor Britto, Anne Belize, Joyce, Mihh Moraes e Veto Martins. Completa o elenco Alicia dos Anjos, atriz trans que interpreta Lúcia, uma mulher cis e filha de Humberto. A escalação rompe com a lógica que costuma limitar atrizes trans a papéis definidos por sua identidade de gênero e amplia o sentido de representatividade dentro do próprio filme.
A presença de um elenco integralmente negro em uma produção como Barulho também convida a olhar para as condições de acesso e permanência desses profissionais na indústria audiovisual. Embora a produção negra tenha conquistado mais espaço nas últimas décadas, as desigualdades na distribuição de recursos e nas oportunidades de trabalho continuam sendo um desafio.
Em setembro, a Associação de Profissionais do Audiovisual Negro no Brasil (Apan) divulgou a Carta do Audiovisual Negro às Candidaturas Antirracistas de 2026. O documento chama a atenção para a necessidade de ampliar a equidade no setor e garantir condições para que profissionais negros não apenas ingressem no mercado, mas também permaneçam nele. Segundo os dados apresentados pela entidade, 94% dos filmes que receberam recursos federais foram dirigidos por pessoas brancas. Entre as produções de maior orçamento, o cenário é semelhante: mais de 90% dos filmes que receberam recursos públicos acima de R$ 5 milhões têm direção de pessoas brancas.
A desigualdade também se reflete nas equipes. Na produção cinematográfica, profissionais negros representam 29,3% da força de trabalho, enquanto pessoas brancas correspondem a 69,6%. Na televisão aberta, pessoas pretas e pardas ocupam 32,6% dos postos de trabalho registrados, diante de 65% de pessoas brancas. No conjunto do audiovisual, a participação de profissionais negros não chega a 35%, apesar de a população negra ser maioria no Brasil. A Apan destaca ainda que esses trabalhadores estão mais concentrados em funções técnicas, frequentemente associadas a remunerações menores, maior informalidade e menos proteção trabalhista.
Ao mesmo tempo, o crescimento da produção negra revela uma história que vem sendo construída há décadas e ganhou força especialmente a partir dos anos 2010. A pesquisa Cinemateca Negra, desenvolvida pelo Instituto NICHO 54, identificou 1.104 filmes dirigidos por pessoas negras no Brasil entre 1949 e 2022, incluindo curtas, médias e longas-metragens. Desse total, 83% foram realizados a partir de 2010.
Os números mostram a dimensão dessa transformação: foram seis títulos na década de 1960, 117 nos anos 2000 e 586 na década de 2010, o maior volume registrado no levantamento. Ainda assim, dados preliminares divulgados em 2023 indicavam que apenas 10% dos filmes brasileiros lançados entre 2010 e 2020 haviam sido dirigidos por pessoas negras.
“Foi um projeto que me permitiu a permanência na função de diretora. O foco é ser contratada para exercer somente esta função, assim pretendo somatizar aos dados que a competência artística requer oportunidade de contar histórias que contribuam com as aspirações de uma humanidade que necessita constantemente de justiça, esperança, paz e unidade”, afirma Karen Suzane, diretora do filme Barulho.
Nesse contexto, a circulação de Barulho representa também a possibilidade de ampliar a presença de histórias, profissionais e perspectivas negras nas telas. Ao reunir um elenco negro em torno de uma narrativa sobre perda, convivência e música, o curta se soma a uma produção que reivindica espaço no cinema brasileiro e contribui para tornar mais diversas as histórias contadas e as pessoas que as contam.
Barulho tem patrocínio da BB Seguros, é produzido pela Maruti Blue Produções, conta com produção associada de Tina Tigre e distribuição da Tarrafa. O roteiro é assinado por JulyFrans, Leonardo Lumas e Caio Pudenzi. JulyFrans e Lumas também atuam como coprodutores do filme.
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