Disco Eu Caçador de Mim traz músicas inéditas com parcerias e participações de Almir Sater, Chico César, Gabriel Sater, Zeca Baleiro e livro homônimo com prefácio do jornalista Tárik de Souza celebrando oito décadas de encontros, estradas, festivais, estúdios, amizades e canções que ajudaram a construir a trilha sonora de várias gerações
Aos 80 anos e depois de seis décadas de carreira, Luiz Carlos Sá retoma sua trajetória solo com o lançamento de seu terceiro álbum, Eu, Caçador de Mim, e de seu primeiro livro, Eu, Caçador de Mim – As Muitas Vidas de Artista, ambos pela gravadora e editora Kuarup. O novo momento reúne novas canções, parcerias e o registro, em livro, de experiências que marcaram sua vida como artista. A publicação, que conta com uma playlist especial de músicas sobre os capítulos, traz crônicas escritas ao longo de cerca de 20 anos, originalmente publicadas na revista BackStage e, posteriormente, em seu site. Os textos registram histórias de estrada, festivais, estúdios, amizades, encontros e episódios da vida musical de Sá além da passagem pelo rádio, jornalismo e publicidade. O prefácio é assinado pelo prestigiado jornalista Tárik de Souza. Segundo Sá, ele ainda tem pelo menos 200 crônicas que não entraram no livro. A ideia de transformar essas histórias em um livro nasceu em 2004, a partir de uma sugestão de seu filho, Miguel Sá, que trabalhava como repórter e redator da BackStage. As crônicas foram publicadas na edição impressa da revista até 2019 e continuaram no site até 2024. Para a edição em livro, Sá revisitou parte do material, reescrevendo textos e adicionando lembranças e detalhes recuperados ao longo do tempo. “Eu adorei escrever. Eu acho que fiquei muito feliz quando fui chamado de compositor e escritor”, conta Sá. Para ele, a conclusão do livro representa também o encerramento de um ciclo: “É como se eu tivesse fechado um capítulo e agora estivesse respirando um pouco antes de entrar no século XXI.”
O álbum Eu, Caçador de Mim também traduz esse movimento de renovação. Terceiro álbum solo de Sá, o trabalho é lançado em formato físico e reúne músicas inéditas e novas parcerias com nomes de diferentes gerações da música brasileira, entre eles Zeca Baleiro, Chico César, Ivan Lins, Gabriel Sater e Almir Sater. O disco incorpora ainda o repertório de Sambas de Mato, segundo álbum solo do compositor, lançado digitalmente em 2025.
Entre as novas canções estão Tanto Te Vi Partir, com Zeca Baleiro; Ávida Dádiva, com Chico César; Foi Bem Lá, com Ivan Lins; Jabuticaba em Flor, com Gabriel Sater e Eu Sou Mais Do Que Sou, com Almir Sater. A aproximação com novos parceiros, segundo Sá, aconteceu de forma espontânea. Na entrevista sobre o lançamento, ele relaciona esses encontros à continuidade da música entre diferentes gerações, em um processo no qual artistas e obras vão se conectando ao longo do tempo. “É uma linguagem que vem numa trilha, como uma trilha dentro de uma floresta. Você vai andando e vai encontrando pessoas que estão naquela trilha”, define. A retomada da carreira solo acontece depois do encerramento da parceria com Guarabyra. Juntos, e ao lado de Zé Rodrix na formação original, os três forjaram uma maneira de compor, tocar e cantar que a crítica especializada batizou de rock rural, fundindo a música brasileira interiorana com influências do folk rock. Ao longo dessa trajetória, Sá & Guarabyra assinaram canções como Sobradinho, Mestre Jonas, O Pó da Estrada, Espanhola, Cheiro Mineiro de Flor, Caçador de Mim, Jesus Numa Moto e temas de novelas como Roque Santeiro, Dona, Verdades e Mentiras e Estrela Natureza entre outras. “Eu acho que esse fim da dupla fez bem para mim e provavelmente também para o Guarabyra”, afirma Sá. Segundo o compositor, o encerramento da parceria abriu espaço para novas possibilidades e para a experiência de começar novamente um projeto solo.
Nascido em Vila Isabel, no Rio de Janeiro, Luiz Carlos Sá teve suas primeiras músicas gravadas em 1965 e estreou nos palcos no ano seguinte, no espetáculo Samba Pede Passagem, do Grupo Opinião. Antes de se dedicar integralmente à música, passou pelo jornalismo e pelo rádio. No livro, sua trajetória profissional também inclui experiências em outras áreas, como publicidade, atividade que exerceu desde o final dos anos 1960. Ao longo da carreira, teve mais de 300 músicas gravadas por diferentes intérpretes da música brasileira, entre eles Milton Nascimento, Ivan Lins, Ney Matogrosso, Gal Costa, Zizi Possi, Erasmo Carlos, Beto Guedes, Roupa Nova, 14 Bis, Flávio Venturini, Nara Leão, Zé Ramalho, Chitãozinho & Chororó, Almir Sater e Gabriel Sater. Aos 80 anos, Sá fala sobre novos projetos e sobre o desejo de continuar criando, viajando, escrevendo e subindo ao palco. Entre seus planos estão realizar um projeto com uma grande orquestra sinfônica e fazer uma temporada prolongada em teatro, formato que, segundo ele, permitiria desenvolver uma relação mais profunda entre artista, banda e repertório. “Eu quero cantar, quero viajar, quero fazer coisas novas”, resume. Ao falar sobre o que a vida lhe ensinou, Sá destaca a importância de tentar não fazer aquilo de que não gosta e de não permanecer em caminhos que não deseja. “Você tem que tentar não fazer o que você não gosta. Não entrar numa tribo de desprazer.” Esse princípio aparece também quando o compositor relembra sua trajetória profissional. Ele conta que chegou a estudar direito por expectativa familiar, mas percebeu que aquele não era o caminho que queria seguir. Depois passou pelo jornalismo e pelo rádio, mantendo-se próximo da escrita e da música, até dedicar-se integralmente à carreira artística. A publicidade também ocupou um lugar importante. No livro, o compositor conta que entre as diferentes atividades que exerceu, foi essa a que “alicerçou sua sobrevivência financeira e trouxe alegrias”. A atuação na área começou ainda no final dos anos 1960, quando foi convidado pelo jornalista Nelson Motta e pelos irmãos Marcos e Paulo Sérgio Valle para a produtora Aquarius. Mais tarde Rogério Duprat o convidou para trabalhar na criação de jingles em São Paulo, no estúdio Vice-Versa, movimento que também esteve ligado à mudança de Sá para a cidade com a família. O jingle mais famoso é o que fez para Caixa Econômica Federal com o bordão: “Vem pra Caixa você também”, propaganda que esteve no ar por muito tempo. A música de Luiz Carlos Sá em parceria com Guarabyra esteve presente em vários álbuns lançados e em novelas que marcaram a televisão brasileira. Entre elas está Roque Santeiro, a trama exibida pela TV Globo entre 1985 e 1986, que foi a maior audiência da história da televisão brasileira, com músicas como Roque Santeiro, Verdades e Mentiras e Dona. Já em Pantanal, a dupla teve Estrela Natureza e Quem Saberia Perder no repertório da novela. O livro também conta a história de Estrela Natureza, adaptada por Sá & Guarabyra para o contexto da trama. “Eu estou começando uma carreira solo aos 80 anos. Isso é uma novidade até para mim”, diz. O livro recupera experiências que fazem parte da “vida de artista” de Sá, enquanto o novo álbum registra as novas parcerias e canções deste momento de sua carreira. Entre os projetos que deseja realizar estão cantar com grandes orquestras, fazer uma temporada prolongada em teatro e continuar escrevendo e compondo. “São ambições perfeitamente factíveis”, afirma.
Confira a playlist especial feita por Luiz Carlos Sá para o livro Eu Caçador de Mim: https://open.spotify.com/playlist/0sA8qfkhConwa8FwZ3rbrt.
Faixa a faixa
Caçador de Mim (Sergio Magrão/ Luiz Carlos Sá): minha parceria de 1980 com o grande Sérgio Magrão, amigo e primeiro baixista do Sá, Rodrix & Guarabyra, com quem até hoje divido o palco quando me apresento ao lado do 14Bis. Nós a finalizamos na rua Alves Guimarães, 170, em Pinheiros, onde eu tinha o estúdio Vice-Versa em sociedade com Guarabyra, Rogério Duprat, Luiz Botelho e Vanderlei Rodrigues, por coincidência, quase em frente à casa que hoje sedia a gravadora e produtora Kuarup. É a primeira vez que eu a gravo solo, só de voz e violão.
Foi Bem Lá (Ivan Lins/Luiz Carlos Sá): quando me mudei para Portugal, em 2020, eu e Ivan Lins, que também estava por lá, trocamos algumas ideias por whatsapp, embora, em plena pandemia, não conseguíssemos nos encontrar. Numa dessas mensagens Ivan me mandou um tema, pedindo que eu pensasse não só numa letra, mas também numa segunda parte da melodia. Fazer o complemento de uma melodia com sua respectiva harmonia para um músico como Ivan Lins não é para qualquer dia, nem para qualquer um. Senti o peso da responsabilidade e passei um bom tempo do meu “exílio” português estudando seus caminhos harmônicos, que escondem tramas engenhosas em aparentes simplicidades. Quando você é parceiro do Ivan, seu nível de responsabilidade sobe. Imaginem como fiquei feliz quando meu amigo adorou não só a segunda parte, como também a letra. Foi Bem Lá é a história de um garoto da cidade apaixonado por uma moça interiorana que ele encontrou e reencontrou vida afora. Quantas vezes por dia isso acontece? Mas nunca é demais cantar.
Tanto Te Vi Partir (Luiz Carlos Sá/ Zeca Baleiro): meu primeiro encontro com o Zeca Baleiro foi na Fundição Progresso, noite de lançamento da web rádio de um amigo em comum, Ricardinho Moreira. “Lá pelas tantas, Ricardinho me chamou: Sá, você dá uma carona no teu táxi para o Zeca Baleiro? Vocês estão no mesmo hotel. Claro. Chama ele”. Eu ainda não tinha encontrado pessoalmente o Zeca, embora já o admirasse pelo que escutava nas rádios. E lá fomos conversando no táxi, eu pensando um jeito de perguntar se ele não toparia me mandar uma daquelas letras fantásticas para que eu colocasse uma melodia. Nessa época eu era vítima de uma “síndrome do letrista”: com exceção do Guarabyra, meus parceiros mais frequentes Flávio Venturini, Gabriel Sater e Tavito eram melodistas. Então, chamei a cavalaria e falei na orelha do Baleiro, desde a Lapa até o Leme: “Zeca, ando de saco cheio de fazer letra, estou cheio de melodias na cabeça, queria muito ser visto como um melodista também, antes mesmo de letrista…” Nos despedimos entre mútuos elogios. Claro que Zeca, melodista e letrista que é, percebeu minha frustração e saiu com aquilo na cabeça. Não se passou muito tempo antes que eu recebesse a letra do Zeca, uma bem concebida ligação de ideias, um verdadeiro artesanato, bordando as idas e vindas de um amor com os meses do ano. É a poesia de um atento observador da vida, como ele sabe muito bem ser.
Ávida Dádiva (Luiz Carlos Sá/ Chico Cesar): Ah, as frias noites paulistanas e suas surpresas. Saídos não lembro de que bar ou de qual estúdio, eu e meu parceiro e amigo Vítor Martins fomos gelando pela rua. Vítor me propõe uma subida ao escritório da sua então gravadora, a Velas, logo ali pertinho de onde estávamos. “Um cafezinho” – ele fala – “vem conhecer a Velas”. Conheci não só o escritório da Velas: também conheci Chico César, que lá estava, acho que ultimando as coisas e tais do lançamento de seu álbum Aos Vivos. Enquanto tomávamos o tal café, Vítor abraçou Chico, e soltou para mim sua certeira profecia: “Este aqui vai ser uma voz poderosa na nossa música”. No aniversário do Chico, em 2013, mandei os parabéns por e-mail (acho que Whatsapp nem existia.) e recebi de resposta essa poesia que me tocou bem de perto e bem por dentro. A melodia saiu rápido, parecendo que estava esperando por aquelas palavras. A música pronta, fiquei esperando a hora certa de gravar, que chegou agora, treze anos depois, provando que o que é verdadeiro não envelhece. E enquanto isso, cumprindo a profecia de Vítor, Chico abriu as asas e saiu voando, de Catolé do Rocha para o Mundo.
Eu Sou Mais Do Que Sou (Almir Sater/Luiz Carlos Sá): estou hospedado na casa de Gabriel Sater. Atravessamos a rua e batemos na porta do vizinho: Almir Sater, seu pai. Entramos, conversamos, aparece um linguado à milanesa, um vinho é aberto, a lareira é acesa para esquentar a noite fria da serra, os violões saem dos cases e mais uma vez essa mágica das parcerias toma conta da sala. Almir desfia um tema, eu já estou de caneta e papel, apoiado na mesa de centro, penso nos muitos dias em que já estou ali na Cantareira, longe de casa, com saudades de minha mulher. A letra sai fácil, emotiva, Almir e Gabriel estimulam, outro vinho é aberto, mais lenha no fogo, essa está pronta. Quase amanhecendo, atravessamos de volta para a casa do Gabriel, minha primeira parceria com o pai e um monte já pronta com o filho. Conversa de gerações.
Jaboticaba Em Flor (Gabriel Sater/João Gaspar/Luiz Carlos Sá): é uma longa história, que hoje já conta com mais de trinta músicas em parceria. Gabriel Sater chegou até mim através de Paulo Ribeiro e Pedro Baldanza. Um belo dia, do nada, Pedrão, meu parceiro, amigo e companheiro de inúmeras viagens que se foi precocemente para a banda do céu, chegou para mim e falou: “Meu amigo Paulo Ribeiro me apresentou umas músicas do Gabriel Sater, filho do Almir Sater”. “Você devia ouvir e conhecer o cara, acho que tem tudo a ver contigo”. A observação musical do experiente Pedrão não deu erro: a liga mostrou-se forte desde a primeira parceria, Boca do Mato, que completamos em 2012. Gabriel mandava as músicas e as letras me pareciam já estarem prontas, tão fácil era fazê-las, visto que, apesar do que poderia parecer a priori uma distância imensa de gerações, formação e tendências, as melodias me evocavam pessoas e lugares presentes desde sempre em minha vida. Muitas delas me pareciam mesmo terem sido feitas por mim, uma liga que só aparece nas grandes parcerias, como a nossa. E viemos em frente, através dos anos, ora por momentos presenciais ora por muitas horas on-line à frente dos respectivos laptops. Passamos pela pandemia, ele no seu Pantanal de origem, eu no meu Portugal de exílio pandêmico. Aportamos em novelas, desde Cabelos de Fogo, composta para a novela Pedacinho de Chão até Noite de Tempestade, que Gabriel tocou no remake de Pantanal. De vez em quando junta-se a nós nosso parceiro, o violonista, compositor e produtor João Gaspar, e formamos um trio porreta. “Aqui fiquei lembrando das jaboticabeiras de Sabará e da paixão que minha mãe tinha por essa fruta”. “Uma jabuticabeira (com “o“ ou com “u” ) em flor é muito linda de se ver”. “E muito boa de cantar”.
Sobre Luiz Carlos Sá
O cantor, compositor e instrumentista Luiz Carlos Pereira de Sá nasceu em Vila Isabel, Rio de Janeiro. Em 1965, teve suas primeiras músicas gravadas, por Pery Ribeiro, Luhli, Nara Leão, MPB4, Milton Banana Trio e outros. No ano seguinte fez sua estreia nos palcos, participando do musical Samba Pede Passagem, do Grupo Opinião, ao lado de jovens estreantes como Sidney Miller, Paulo Thiago, Sonya Ferreira (hoje ex-integrante do Quarteto em Cy) e de referências musicais da época e de sempre como Baden Powell, Aracy de Almeida e Ismael Silva. Depois de concorrer a alguns festivais, gravar seu primeiro single Inaiá e Canto do Quilombo pela gravadora RCA e ter várias músicas incluídas em trilhas de novelas, forma em 1972 com Zé Rodrix e Guarabyra o trio Sá, Rodrix & Guarabyra – que prosseguiu em dupla, a partir de 1974, após a saída de Rodrix, que depois voltou de 2001 a 2009, emplacando dezenas de sucessos como Primeira Canção da Estrada, O Pó da Estrada, Hoje Ainda é Dia de Rock, Mestre Jonas, Sobradinho, Espanhola, Cheiro Mineiro de Flor, Caçador de Mim e Jesus Numa Moto. Alguns dos sucessos da dupla foram em novelas referenciais da TV brasileira, como Roque Santeiro, com as músicas Roque Santeiro, Verdades e Mentiras e Dona e Pantanal, que teve da dupla de músicas Estrela Natureza e Quem Saberia Perder. Fundindo a música brasileira interiorana com influências do folk rock, Sá & Guarabyra forjaram com Rodrix uma maneira de compor, tocar e cantar que a crítica especializada batizou de rock rural. Sá tem mais de 300 músicas gravadas por alguns dos principais intérpretes de diversas gerações e tendências da música brasileira como Ivan Lins, Ney Matogrosso, Almir e Gabriel Sater, Roupa Nova,14 Bis, Flavio Venturini, Milton Nascimento, Zizi Possi, Erasmo Carlos, Chitãozinho & Chororó, Beto Guedes, Nara Leão, Gal Costa, Zé Ramalho e dezenas de outros. No ano de 2025 Sá lançou seu segundo álbum solo, o Sambas de Mato, exclusivamente nas plataformas digitais. Em 2026 lança Eu Caçador de Mim, novo álbum em formato físico que incorpora Samba de Mato e estreia seu primeiro livro, Eu Caçador de Mim – As Muitas Vidas de Artista, com uma compilação de suas melhores crônicas.
Sobre a Kuarup
Especializada em música brasileira de alta qualidade, o seu acervo concentra a maior coleção de Villa-Lobos em catálogo no país, além dos principais e mais importantes trabalhos de choro, música nordestina, caipira e sertaneja, MPB, samba e música instrumental em geral, com artistas como Baden Powell, Renato Teixeira, Ney Matogrosso, Wagner Tiso, Rolando Boldrin, Paulo Moura, Raphael Rabello, Geraldo Azevedo, Vital Farias, Elomar, Pena Branca & Xavantinho e Arthur Moreira Lima, entre outros.

