Em parceria com a Janaina Torres Galeria, a mostra reúne cerca de 12 obras entre pinturas, esculturas em vidro e videoinstalação que investigam os mecanismos de resiliência da natureza diante da devastação ambiental
No dia 19 de agosto, a Casa Seva inaugura, em parceria com a Janaina Torres Galeria, a exposição individual Invenção da Paisagem-Memória, da artista visual mineira Jeane Terra. Em cartaz até 26 de setembro, a mostra apresenta pela primeira vez a pesquisa inédita “Memória da Ecologia”, dedicada à investigação dos mecanismos de resiliência da natureza diante da devastação provocada pela ação humana.
Reunindo cerca de 12 obras entre pinturas, esculturas em vidro soprado, videoinstalação e uma instalação inédita, a exposição tem curadoria assinada por Heloísa Amaral Peixoto e marca o início desse novo ciclo de investigação da artista.
A pesquisa dá continuidade ao percurso que Jeane desenvolve em torno da memória e do apagamento de territórios. Após dedicar seus trabalhos recentes a cidades destruídas ou submersas, como em “Escombros, Peles e Resíduos” (2021), sobre Atafona, e “Territórios, Rupturas e suas Memórias” (2022), inspirada pelas cidades baianas inundadas pela construção da barragem de Sobradinho, a artista passa a investigar a própria natureza e as estratégias que plantas e paisagens desenvolvem para sobreviver e se regenerar diante da degradação ambiental.
“É a regeneração da natureza através da memória da destruição”, resume Jeane Terra sobre a nova pesquisa, que parte da observação de espécies que rebrotam após queimadas ou colonizam em áreas alagadas, carregando em si uma memória de sobrevivência.
Na Casa Seva, espaço dedicado à sustentabilidade, à arte e à cultura, Jeane apresenta pinturas em “pele de tinta”, esculturas em vidro soprado manualmente e uma videoinstalação. Desenvolvida e patenteada pela artista, a técnica “pele de tinta” combina tinta acrílica, aglutinante e pó de mármore. Após a secagem, as superfícies recebem bordados em ponto cruz, técnica aprendida com sua avó e incorporada à sua prática artística.
Entre os trabalhos inéditos estão três grandes pinturas pixeladas em “pele de tinta”, dedicadas ao aguapé e ao mangue, espécies que se fortalecem e se multiplicam em condições extremas de alagamento. Completa esse núcleo a instalação “Floresta de peles”, composta por moldes em látex retirados diretamente da casca de árvores. As peças preservam as texturas da vegetação como uma espécie de impressão digital da paisagem, propondo uma reflexão sobre memória, permanência e transformação.
A exposição também reúne obras de pesquisas anteriores, evidenciando a continuidade entre os diferentes momentos da produção da artista. Entre eles está uma pintura em grande formato dedicada a uma igreja do século XVIII, submersa após a construção da barragem de Sobradinho, além de duas obras inspiradas nas ruínas de Atafona.
Outro destaque é a série de esculturas em vidro soprado “Cápsulas de Memória”. Duas delas, uma de parede e uma de pedestal, recebem monotipias aplicadas sobre o vidro. Outras duas encapsulam moldes de cerâmica produzidos a partir de escombros recolhidos pela artista nas cidades de Remanso e Sento Sé, na Bahia.
“O vidro nasce da areia do rio aquecida. Os materiais que utilizo também contam histórias: há uma circularidade neles, nada está ali por acaso”, explica Jeane Terra. Algumas esculturas incorporam água do Rio São Francisco, levada pela artista do sertão baiano para seu ateliê. Uma videoinstalação complementa esse conjunto. Projetada sobre uma escultura de vidro que incorpora água do Rio São Francisco, a obra apresenta imagens registradas pela artista no interior de uma caixa d’água em ruínas na antiga cidade de Remanso, local normalmente submerso e visível apenas durante os períodos de seca.
Sobre apresentar seu trabalho na Casa Seva, Jeane destaca a afinidade entre sua pesquisa e a proposta do espaço. “Estar na Casa Seva é muito importante porque encontro um lugar comprometido com as questões ambientais e que dialoga diretamente com o que venho investigando”.
Heloísa Amaral Peixoto, em seu texto curatorial, pontua: “Uma paisagem a salvo. No desaparecimento e no reaparecimento, nos apagamentos e nos ressurgimentos, nas aproximações e distâncias, no mistério e na claridade. O olhar ora se detém ora vaga na geometria, que por vezes, se contrapõe no carácter fluído e impreciso que a sua superfície exibe. Memória que transcorre em um ritmo de tempo ordenado quanto à forma de expressão da imagem e impregnado quanto a sua forma e conteúdo”.
Sobre a artista
Jeane Terra (Minas Gerais, 1975) é artista visual radicada no Rio de Janeiro desde 2011. Durante dez anos foi assistente da artista plástica Adriana Varejão e desenvolve uma pesquisa voltada às relações entre memória, território e questões ambientais, utilizando pintura, escultura, fotografia, instalação e videoarte. É criadora da técnica patenteada “pele de tinta”, que combina pintura e bordado em ponto cruz.
Suas obras integram importantes coleções, entre elas as do Instituto Inhotim, do Museu de Arte do Rio (MAR) e do Centro Cultural dos Correios (RJ). Também participou de exposições no Brasil e no exterior, incluindo o Museu Ettore Fico, em Turim (Itália) e a Biwako Biennale, no Japão. Entre suas individuais mais recentes estão “Escombros, Peles, Resíduos” (2021), “Territórios, Rupturas e suas Memórias” (2022) e “Pele do Rio” (2025), sua primeira exposição individual em São Paulo, realizada na Galeria Janaína Torres.
Sobre a Casa Seva
A Casa Seva é um espaço dedicado à sustentabilidade, à arte e à cultura, criado para estimular práticas mais sustentáveis no circuito artístico. Localizada na Vila Modernista, conjunto projetado por Flavio de Carvalho, promove exposições, palestras e workshops voltados à reflexão sobre arte, natureza e preservação ambiental.
Serviço
Invenção da Paisagem-Memória
Individual de Jeane Terra, em parceria com a Janaina Torres Galeria
Entrada gratuita
Abertura: 19 de agosto, quarta-feira, das 18h às 21h
Período de visitação: de 19 de agosto a 26 de setembro de 2026
Local: Casa Seva | Alameda Lorena, 1257, Vila Modernista, Casa 1, São Paulo/SP
Horário de funcionamento: terça a sexta, das 11h às 18h; sábado, das 11h às 15h

