Homenagem da escola de Madureira transforma a Sapucaí em espaço de memória, ancestralidade e escrevivências, com a presença de mulheres negras que constroem a história ao lado da autora
O carnaval é, historicamente, um dos maiores palcos de afirmação da cultura negra no Brasil. Mas ele também é um espelho das disputas políticas do país: por séculos, expressões negras foram reprimidas e criminalizadas, ao mesmo tempo em que sustentavam a vida cultural das cidades. O próprio IBGE registra que manifestações como o samba e outras práticas negras estiveram entre os alvos de repressão — um dado que ajuda a dimensionar o carnaval não apenas como festa, mas como território de resistência e sobrevivência coletiva.
Essa dimensão histórica se torna ainda mais nítida quando o Estado brasileiro reconhece, oficialmente, a centralidade dessas matrizes culturais. O Instituto do Patrimônio Histórico e Artístico Nacional (Iphan) registrou como Patrimônio Cultural do Brasil as Matrizes do Samba no Rio de Janeiro — incluindo partido alto, samba de terreiro e samba-enredo — reconhecendo a força de uma tradição construída em comunidades negras e populares e estruturante do carnaval moderno.
Em 2026, essa história ganha mais um capítulo com a escolha de Conceição Evaristo como enredo do Império Serrano, escola símbolo de tradição, resistência e raízes afro-brasileiras. Para a CRIOLA, a homenagem representa um marco político e cultural que dialoga diretamente com a luta histórica das mulheres negras por reconhecimento, dignidade e direito à memória.
O enredo “Ponciá Evaristo, Flor do Mulungu” se distancia de uma narrativa meramente biográfica para se transformar em um tributo coletivo às trajetórias de mulheres negras que constroem o Brasil a partir de suas vivências. Inspirado no conceito de escrevivências, criado por Conceição Evaristo, o desfile propõe uma leitura do carnaval como território de saber, onde a experiência negra feminina é centro — e não margem.
A presença da escritora ao lado de mulheres negras parceiras e referências, como Lúcia Xavier (coordenadora geral de CRIOLA) e Jurema Werneck (cofundadora), amplia ainda mais o significado dessa homenagem. Trata-se de uma escolha que rompe com a lógica da exceção e reafirma a coletividade como princípio. Ao ocupar a avenida juntas, essas mulheres transformam o desfile em um gesto político, ancestral e profundamente simbólico.
A valorização da ala das baianas como um dos eixos centrais do desfile também reposiciona a história do carnaval a partir do matriarcado negro — das “tias” e lideranças comunitárias às guardiãs do samba e das memórias de território. Iniciativas de memória como o Museu do Samba destacam esse matriarcado como fundamento da historiografia do samba, celebrando lideranças femininas negras que sustentaram e transformaram a cultura do país.
Além do Rio, a história do carnaval brasileiro também foi marcada por experiências negras de afirmação identitária explícita, como os blocos afro e afoxés na Bahia. Pesquisas e registros históricos apontam o Ilê Aiyê, fundado em 1974, como um marco na afirmação de uma estética e identidade afro-baiana no carnaval, impulsionando movimentos de “reafricanização” e disputa simbólica por reconhecimento. E essa mesma potência aparece em trajetórias como a do Olodum, nascido em 1979 e reconhecido por instituições públicas como referência da cultura afro-brasileira.
A escolha de Conceição Evaristo, portanto, não fala apenas do “peso cultural” das contribuições negras: ela evidencia como o carnaval opera, na história do Brasil, como um campo de disputa por humanidade, cidadania e narrativa. Quando uma escola como o Império Serrano coloca uma escritora negra no centro da Sapucaí, reafirma que o Brasil também se escreve na avenida — e que as mulheres negras são autoras dessa história, mesmo quando tentaram apagá-las.
Para a CRIOLA, a homenagem a Conceição Evaristo no carnaval também dialoga com a defesa da literatura como direito. Ao levar uma escritora negra para o centro da Sapucaí, o Império Serrano contribui para democratizar o acesso à palavra, ao livro e à escrita, reconhecendo a potência da produção intelectual negra como parte fundamental da cultura nacional.
Em um momento em que o carnaval volta a ser disputado também como território simbólico, a escolha de Conceição Evaristo reafirma que não há festa sem memória, nem futuro sem justiça racial. Celebrar essa trajetória é celebrar milhares de mulheres negras que, todos os dias, escrevem suas histórias — muitas vezes fora dos livros, mas nunca fora da luta.
Sobre CRIOLA
CRIOLA é uma organização da sociedade civil fundada em 1992 e conduzida por mulheres negras. Atua na defesa e promoção de direitos das mulheres negras em uma perspectiva integrada e transversal, tendo por missão trabalhar para a erradicação do racismo patriarcal cisheteronormativo, contribuindo com a instrumentalização de meninas e mulheres negras, cis e trans, para a garantia dos direitos, da democracia, da justiça e pelo Bem Viver.
