Trama propõe um encontro entre ancestralidade e modernidade ao aproximar bancos indígenas da coleção Porangatu e obras da série Tecelares, de Lygia Pape, em uma exposição que articula gesto, matéria e geometria.


Esq.: coleção Porangatu, autoria desconhecida, déc. 1990, foto Sergio Guerini
Dir.: Lygia Pape (1927–2004), Sem título, da série Tecelares, 1953, foto Filipe Berndt
A Gomide&Co, em parceria com a coleção Porangatu, tem o prazer de apresentar Trama, exposição que propõe um diálogo inédito entre bancos de madeira produzidos por etnias indígenas em sua maioria do Alto Xingu e obras da série Tecelares (1953–1960), de Lygia Pape. A apresentação, que ocupa o Viewing Room da galeria, tem texto crítico de Camila Bechelany e expografia do escritório de arquitetura Acayaba _ Rosemberg Arquitetos. A abertura acontece no dia 10 de fevereiro (terça-feira), às 18h, e a exposição segue em cartaz até 21 de março.
Trama reúne mais de 10 bancos de madeira produzidos por etnias diversas da Amazônia brasileira, como Assurini, Karajá, Mehinako, entre outras localizadas no Alto Xingu e arredores. Os exemplares são provenientes da coleção Porangatu, criada por Maria Feitosa Martins. “Minha família coleciona arte indígena há mais de 20 anos, motivada pelo interesse em explorar paralelos e conexões entre a arte moderna e contemporânea e a rica produção de artistas indígenas”, comenta Martins, que desenvolveu a Porangatu entre 2022 e 23 na intenção de aprofundar esse eixo da coleção da família.
Os bancos de madeira apresentados na exposição evidenciam a sofisticação técnica e simbólica dessa produção ancestral, resultado de práticas transmitidas entre diferentes povos originários da Amazônia e de seu entorno. Geralmente esculpidos a partir de um único tronco e muitas vezes concebidos na forma de animais, entidades espirituais ou estruturas geométricas, eles incorporam grafismos realizados por entalhe, pirografia ou pigmentos naturais – registros que expressam histórias, cosmologias e conhecimentos transmitidos ao longo de gerações.
No cotidiano dessas comunidades, os bancos atuam simultaneamente como objetos de uso e como marcadores sociais e rituais, indicando posições de liderança ou servindo de suporte para práticas xamânicas. Inseridos hoje no campo ampliado da arte e do design, esses assentos tornam visível o protagonismo indígena e reafirmam a relevância de seus repertórios estéticos na formação da cultura brasileira, convocando o público a reimaginar – e reflorestar – o próprio imaginário.
No contexto de aproximações proposto pela exposição, a série Tecelares, de Lygia Pape, surge como um eixo fundamental de diálogo. Realizadas em xilogravura, as obras da série partem da exploração da chamada “linha-corte”, em que a incisão na madeira – gesto físico, direto e irreversível – estrutura composições geométricas que tensionam rigor e sensibilidade, cálculo e matéria viva. Nos Tecelares, a geometria neoconcreta não se afirma como abstração pura, mas como resultado de um fazer que responde a veias, resistências e acidentes do suporte, instaurando uma noção de espaço construída pelo corpo e pela ação. É nesse ponto que se delineiam paralelos possíveis com os bancos indígenas: tanto nas gravuras de Pape quanto nesses objetos ancestrais, a madeira não é mero suporte, mas agente ativo de sentido; e o grafismo, longe de ser decorativo, constitui um sistema de conhecimento incorporado no gesto, na repetição e na transmissão. Assim, a exposição evidencia modos distintos, porém igualmente complexos, de compreender o mundo como trama, onde se entrelaçam forma, matéria e experiência.
Trama destaca-se ainda por estabelecer conexões entre três eixos recorrentes no programa curatorial da Gomide&Co: a investigação de objetos de mobiliário a partir de uma perspectiva conceitual e estética; a valorização de repertórios culturais e visuais de povos originários; e a proposição de novas leituras sobre a obra de nomes centrais da arte moderna e contemporânea brasileira, em especial vinculados aos movimentos Concreto e Neoconcreto. Como observa Bechelany, “o exercício de aproximação dos Tecelares (1953–1960) com os bancos indígenas da coleção Porangatu não busca síntese ou harmonização entre objetos de universos culturais tão distintos, mas sim uma fricção produtiva entre geometria e gesto, entre modernidade e ancestralidade, entre obra e corpo”, reafirmando o caráter crítico e relacional que estrutura a exposição.
Sobre a coleção Porangatu
A coleção Porangatu foi criada com a intenção de aprofundar perspectivas sobre a produção realizada por artistas e artesãos indígenas e seus possíveis diálogos com a arte moderna e contemporânea. Concebida em 2021 como extensão da coleção FFHM, a Porangatu foi implementada nos anos seguintes, possuindo atualmente cerca de 90 bancos indígenas, além de cestaria, arte plumária e artefatos.
Sobre Lygia Pape
Lygia Pape (Brasil, 1927–2004) foi uma das artistas mais importantes da arte brasileira do século XX. Integrante do Grupo Frente e signatária do Manifesto Neoconcreto (1959), desenvolveu uma produção marcada pela investigação da relação entre forma, espaço, corpo e experiência sensível. Sua obra transita por diferentes linguagens, como gravura, desenho, pintura, escultura, filme e performance, sempre tensionando os limites entre arte e vida. A série Tecelares (1953–1960), realizada em xilogravura, ocupa lugar central em sua trajetória ao articular rigor geométrico e materialidade orgânica, explorando a madeira como campo ativo de criação. Ao longo de sua carreira, Pape propôs uma arte participativa, experimental e crítica, que permanece fundamental para compreender a arte contemporânea no Brasil.
Sobre Camila Bechelany (texto crítico)
Camila Bechelany é curadora chefe na Oficina Brennand, vivendo entre São Paulo e Recife. É mestre em Artes e Políticas Públicas pela New York University, NY (2008) e Antropologia Social pela EHESS, Paris (2009) e atua há vinte anos como curadora, pesquisadora e crítica de arte. No Brasil, desde 2016, integrou a equipe de curadoria do Museu de Arte de São Paulo (MASP) de 2016 a 2018, foi coordenadora do Pivô Pesquisa em 2019 e diretora de relações institucionais da galeria Nara Roesler. Em Paris, entre 2013 e 2014, foi assistente de curadoria e pesquisadora no Centro Georges Pompidou. Entre alguns de seus projetos independentes estão as exposições: Mulheres na Nova Figuração (São Paulo, 2023); Lugar Comum, Mostra 3M de Arte (São Paulo, 2021); Géometries Plurielles (Paris, 2022); Artur Lescher: Suspensão, Pinacoteca do Estado de São Paulo (2019); Museu On Off, Centre Pompidou, Paris (2017).
Sobre AR Arquitetos (expografia)
AR Arquitetos é um escritório de arquitetura sediado em São Paulo, fundado por Marina Acayaba e Juan Pablo Rosenberg em 2008, com atuação em projetos de arquitetura residencial, design de interiores e remodelações. Com uma trajetória que combina rigor técnico e sensibilidade espacial, o escritório desenvolve soluções criativas em diferentes escalas, explorando a relação entre programa, forma e experiência do usuário. Seus projetos publicados em plataformas especializadas destacam intervenções que valorizam a integração entre espaços, materiais e luz natural, refletindo um olhar atento tanto à funcionalidade quanto à estética contemporânea. A atuação do AR Arquitetos no campo da expografia e do design de ambientes reforça sua capacidade de pensar projetos que dialogam com contextos culturais e curatoriais. Para a Gomide&Co, o escritório já foi responsável pelo projeto de remodelação da atual sede da galeria.
SERVIÇO
Exposição: Trama, diálogo entre bancos indígenas da coleção Porangatu e obras da série Tecelares, de Lygia Pape
Local: Gomide&Co | Avenida Paulista, 2644 – São Paulo/SP
Abertura: 10 de fevereiro de 2026, 18h (na ocasião, haverá valet parking disponível no local)
Visitação: 10 de fevereiro – 21 de março de 2026
Horários de visitação: segunda a sexta-feira, das 10h às 19h, sábado das 11h às 17h
Entrada gratuita
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