Exposição de Edgar Kanaykõ Xakriabá propõe uma experiência de imagem, memória e espiritualidade
No coração da Faria Lima, em São Paulo, um outro tempo pulsa. É o tempo das árvores, da lua, das águas e dos corpos que guardam memória. Assim se abre “Hêmba”, a primeira exposição individual de Edgar Kanaykõ Xakriabá, fotógrafo e antropólogo pertencente à Aldeia de São João das Missões, norte de Minas Gerais. O público pode visitar a mostra, com entrada gratuita, no Solar Fábio Prado, em São Paulo.
O artista, cuja obra nasce do diálogo entre o visível e o encantado, define a exposição como um gesto de partilha. “A abertura foi incrível, dentro daquilo que a gente esperava. Mas o mais importante é o que vem agora: que cada pessoa saia daqui afetada de um jeito diferente por essas imagens. Espero que a exposição continue ecoando, levando essa mensagem para frente”, afirma Edgar.
A mostra deriva do fotolivro homônimo lançado em 2023 pela Fotô Editorial. O projeto nasceu do encontro entre Edgar e a pesquisadora e curadora Fabiana Bruno, que assina a curadoria ao lado de Eder Chiodetto. Fabiana relembra o processo de criação: “O livro foi o primeiro título de uma coleção dedicada à fotografia de autoria indígena. Trabalhamos juntos por quase dois anos na edição desse material, que reunia mais de duas mil imagens. É um trabalho grandioso, com uma concepção de fotografia que desafia os padrões ocidentais e propõe outro modo de ver e narrar o mundo.”
Ela destaca que a exposição amplia essa dimensão. “Hêmba apresenta dois blocos que se cruzam. De um lado, a força política do fotógrafo que documenta as lutas indígenas pelo território; de outro, a poética que acessa as dimensões do sonho, das entidades e dos encantados. O público vai se surpreender com essa travessia — da denúncia à espiritualidade, do real ao simbólico.”
Para Eder Chiodetto, a mostra marca um ponto de virada na fotografia brasileira contemporânea. “A obra de Edgar não apenas representa o mundo, ela o reencanta. Ele transforma o ato fotográfico em rito, e convida o visitante a experimentar a imagem como território. Hêmba não é apenas uma exposição, é uma forma de reconexão entre o humano, a natureza e o cosmos.”
A expografia, criada em diálogo com os curadores, combina molduras diferenciadas, painéis suspensos e projeções, criando um percurso que aproxima o visitante das atmosferas e paisagens retratadas. A mostra está organizada em três núcleos que se entrelaçam, apresentando tanto registros de manifestações indígenas recentes quanto fotografias ligadas à ancestralidade e ao imaginário espiritual do povo Xakriabá.
Na abertura, que aconteceu no sábado, dia 25, a deputada federal Célia Kanaykõ Xakriabá, irmã do artista, emocionou o público ao relacionar o trabalho do irmão com a memória do povo e a luta pela preservação do planeta. “Há mais de trinta anos, não existia câmera em nossas mãos. O que desenhávamos, a luta, estava nas pinturas rupestres das cavernas do Peru Açu, que guardam a memória do povo Xakriabá. Hoje, Edgar devolve esse legado em forma de fotografia, que é também alma e espírito. Esta exposição é um grande reflorestamento do olhar, da imagem e dos corações.”
A deputada destacou ainda a dimensão política do gesto: “Nossa luta não é apenas para reflorestar, é para não adoecer. Dinheiro não substitui floresta. A luta sustenta a floresta, a luta mantém as florestas de pé. Esta mostra nos lembra que cuidar da arte é também cuidar da terra.”
Com curadoria de Fabiana Bruno e Eder Chiodetto, Hêmba propõe uma revisão das narrativas da fotografia brasileira, rompendo com a linearidade ocidental e afirmando a potência da arte indígena como forma de pensamento e resistência.
Serviço
Hêmba – Edgar Kanaykõ Xakriabá
Entrada gratuita
Visitação: Até 15 de dezembro | De terça a domingo, das 10h às 18h
Local: Solar Fábio Prado – Av. Brigadeiro Faria Lima, 2705 – Jardim Paulistano, São Paulo – SP
Curadoria: Fabiana Bruno e Eder Chiodetto
