Aquateca é uma ferramenta em construção que funciona como um repositório colaborativo sobre a temática das águas
Em uma noite marcada por emoção, escuta e resistência, foi lançada oficialmente a Aquateca, ferramenta em construção que pretende reunir saberes, lutas, memórias e experiências sobre as águas no Brasil. A iniciativa foi apresentada por Maiana Maia, especialista do Núcleo de Políticas e Alternativas da FASE (NuPA) durante o evento “Caminho das Águas”, realizado na última semana na Cinemateca do MAM, no Rio de Janeiro. “A ideia da Aquateca é que seja um espaço de continuidade, onde a gente possa seguir se encontrando, mesmo que virtualmente. Um espaço vivo, colaborativo e em construção”, explicou Maiana. O público pôde, em primeira mão, conhecer a plataforma, acessando por meio do QR code que foi distribuído na entrada do evento. Qualquer pessoa pode contribuir depositando seus materiais impressos, vídeo, áudio ou pesquisando o que já há por lá.
Uma travessia coletiva
Antes do lançamento da Aquateca, durante o evento também foram exibidos três curtas-mentragens sobre a preservação das águas. Maureen Santos, coordenadora do Núcleo de Políticas e Alternativas (NuPA), destacou que o seminário e a trilogia audiovisual representam o ápice de um processo de escuta e articulação que percorreu vários territórios. “A água é transversal. Ela resgata nossa atuação e nos convoca ao reencontro com nosso papel. Foram muitos os engajamentos ao longo desses anos, e esse seminário representa uma virada significativa.” pontuou Maureen.
O evento celebrou a estreia da trilogia audiovisual que reflete, além de poesia e profundidade, as múltiplas relações dos povos com as águas no Brasil. Segundo Maiana Maia, o primeiro filme da trilogia é uma verdadeira “carta de amor”: “A gente sonhou essa trilogia para contar histórias que precisam ser vistas e reconhecidas. Esse primeiro vídeo é um agradecimento profundo, um gesto de devolver a poesia que a gente aprende nesses territórios.”
A água que conecta territórios e lutas
A exibição foi seguida por uma roda de conversa, mediada por Maiana, com a presença de Ruben Siqueira, da Comissão Pastoral da Terra (CPT) e Edson Aparecido da Silva, Secretário Executivo do Observatório dos Direitos à Água e ao Saneamento (ONDAS).
Para Ruben Siqueira, a experiência foi transformadora: “Depois de tudo que foi mostrado com tanta beleza, profundidade e alcance, nos cabe ampliar o alcance de nossas lutas. A água conecta territórios e histórias, e isso nos ajuda a enxergar o horizonte.”
Ruben lembrou que mais de um milhão de pessoas morreram por causas relacionadas à seca no Brasil entre 1939 e 1983, e enfatizou que a luta atual é também pela abundância. “Estamos diante de um tempo acelerado de destruição do ciclo das águas. Precisamos nos perguntar: é possível conter as mudanças climáticas com mais capitalismo? Já vimos o impacto do hidronegócio e da transposição do São Francisco.” Maiana finalizou reafirmando a importância do evento. “Não é só destruição. A gente já está criando outras formas. A experiência do seminário mostra isso: fizemos esse movimento para fora, mas também para dentro da gente”.
Para Edson, o evento marca um ponto de inflexão. “Esse seminário foi uma lição. A forma como ele foi organizado, sem mesas tradicionais, com trocas verdadeiras, foi profunda. O saber passa pela academia, mas ele está nos povos. O ONDAS é um legado do Fórum Alternativo Mundial da Água e tem como base o princípio de que todas as pessoas têm direito à água 24 horas por dia, 365 dias por ano”, declarou.
Edson também alertou para o avanço do processo de privatização e financeirização dos recursos hídricos no Brasil:
“As empresas não trabalham para atender quem mais precisa, mas sim pela lógica do lucro. O componente da outorga e da privatização precisa ser urgentemente revisto. Precisamos mudar a lei.”
Encerramento com manifesto
Ao final da noite, um manifesto coletivo foi lido, reiterando o compromisso com a defesa da água como direito humano, bem comum e elemento sagrado. A carta conclama à ação frente às ameaças do modelo predatório de desenvolvimento e reafirma o papel das comunidades e movimentos populares na construção de alternativas sustentáveis.
A Aquateca, lançada oficialmente neste encontro, será uma das ferramentas de preservação e mobilização desses saberes. Um farol para lembrar, reunir e impulsionar o que já vem sendo tecido pelas margens.
Conheça a Aquateca: https://fase.org.br/caminhodasaguas/aquateca/
