Jornada Dupla

Difícil existir alguém que não gosta de música. Eu diria que é praticamente impossível. Independente do estilo, música faz parte da vida de qualquer pessoa desde seu nascimento. Que bebê nunca ouviu uma canção de ninar, qual criança nunca acompanhou alguma trilha sonora de desenhos animados e de filmes ou séries infantis? Não existe vida sem música. Música serve inclusive de referência de momentos inesquecíveis da vida de cada pessoa: passagens da infância, quando se reunia com o grupinho da escola, a(o) primeira(o) namorada(o) e também em momentos tristes, como por exemplo daquela pessoa que você perdeu o contato ou que faleceu. Se nós assimilamos estes sentimentos, pode ser interessante também conhecer a história por trás de cada composição, o que o músico imaginava quando compôs tal letra e/ou melodia pois nem sempre é uma tarefa fácil ter criatividade. Especialmente quando se necessita conciliar seu tempo com outras atividades.

 

Existem inúmeros artistas que dividem seu tempo em trabalhos formais ou informais como sua atividade principal e a música como atividade paralela. Falando por mim, meus 25 anos de trajetória musical foram exatamente desta forma. Meu trabalho formal permite me proporcionar minha atividade musical e eu agradeço todos os dias por isso. Capivarock dissertará hoje sobre pessoas que respiram música mas possuem (e precisam ter) atividades paralelas. Por outro lado, também há pessoas que possuem música como atividade fim e têm uma segunda atividade totalmente diferente. Muitos músicos famosos possuem carreiras que jamais imaginaríamos, alguns exemplos são Brian May (guitarrista do Queen) que é Astrofísico, Bruce Dickinson (vocalista do Iron Maiden) que é piloto de aviões e Greg Graffin (vocalista do Bad Religion) que possui PhD em Zoologia e é professor universitário.

 

Iron Maiden – “Aces High”

 

Bad Religion – “Delirium of Disorder”

Podemos concluir que há um número enorme de artistas conciliando suas atividades laborais com a correria de equalizar seu horário de trabalho com shows, ensaios e divulgação. Há ainda a necessidade de comparecer nos eventos de outros artistas que podem ajudar na própria divulgação e têm o intuito de estreitar a relação entre os artistas para que se consolide um movimento em que novas bandas surjam. Quando se trabalha no famoso esquema Do It Yourself (“Faça você mesmo”) acaba sendo necessário agir como o famoso jargão “jogar nas 11” e se desdobrar para fazer as coisas acontecerem, pois uma coisa é certa: sentado no sofá de casa as coisas não vão cair de mão beijada no seu colo. Já toquei em algumas bandas independentes e uma delas teve seu fim decretado pela indisponibilidade dos integrantes. Não foi a única razão do fim, porém foi o fator determinante para justificar uma eventual falta de vontade que pairava. Naquele momento a única coisa que a banda estava em sintonia era que não havia mais condições de continuar. Anos se passaram e a vida tratou de cruzar nossos caminhos na música novamente e o mais importante: a amizade nunca deixou de existir mesmo com contato reduzido. Conciliar horário fixo de trabalho e atuar na música possui lados bons e maus; ao mesmo tempo que é possível se programar, o efeito pode ser reverso. A falta de flexibilidade pode atrapalhar e infelizmente algum lado sai prejudicado a não ser que adaptações sejam feitas em alguma das duas atividades. Não se enganem: bandas acabam por falta de tempo, artistas desistem da música por falta de tempo. De fato é uma equação de grau elevado.

 

Há também a questão familiar envolvida. Nem todas as pessoas compreendem o quão importante a música é para sua vida e o quanto tempo você se dedica a ela, até mesmo como uma forma de terapia. Apoio da família é fundamental, claro. Mas a dosagem precisa ser equilibrada para que todos saiam ganhando, pois abrir mão de alguma coisa benéfica em detrimento da oposição de terceiros é uma decisão difícil e pode ser frustrante. Um documentário muito interessante que mostra de perto alguns artistas relatando o contraste de fazer parte de uma banda e a paternidade se chama The Other F Word (2011, http://www.imdb.com/title/tt1790867/) baseado no livro do vocalista do Pennywise, Jim Lindberg, chamado Punk Rock Dad: No Rules, Just Real Life que foi lançado em 2008. A película retrata as adversidades da distância da família e o sentimento simultâneo de querer estar e ser presente no desenvolvimento de seus filhos. Num mundo em que se vendem menos álbuns, basicamente os shows são a fonte de renda e artistas beirando a fase da meia idade relatam os pesares em perder por exemplo o primeiro dia de aula de seus filhos, recitais de balé, festas da escola, o jogo de futebol entre outras atividades. A trajetória de LIndberg é retratada mais de perto quando a banda sai em turnê por quase 1 ano e ele já dava indícios de desânimo com as condições encontradas em viagens, alimentação e hospedagens para um homem de quase 50 anos, casado e com três filhas. Não estando em sintonia com os outros integrantes da banda – que não reclamavam destas condições – Jim decide sair da banda após a turnê e procurar outras atividades para que ele pudesse ficar mais próximo à família. Ironia do destino ou não, seu substituto Zoli Téglás (da banda Ignite) que entrou no Pennywise em 2010 chegou a lançar um álbum com a banda chamado All or Nothing (2012, Epitaph Records) porém uma lesão nas costas o impediu de seguir em turnê e ele resolveu deixar a banda. Adivinhem quem o substituiu? O próprio Jim, que retornou em 2012 e permanece até hoje.

 

The Other F Word (documentário completo com legendas em inglês)

 

Pennywise – “All or Nothing” (álbum completo)

 

Quando não se está envolvido neste universo, pode parecer simples opinar. Para a pessoa que vive DA música (há uma diferença grande em relação a viver DE música) é uma administração complexa onde você não quer que ninguém saia perdendo. Exercer suas atividades, mostrar e divulgar sua arte, ter sua válvula de escape é extremamente saudável para qualquer ser humano. Pessoas que possuem o dom da música são privilegiadas em poder contar com ela quando não se tem o “emprego dos sonhos”, mas consegue ter seu tempo para “jogar a pelada de fim de semana” com os amigos. A sensação de liberdade de descompromissadamente se reunir e tocar algumas músicas é indescritível! Entretanto esta não é uma exclusividade do campo musical. Há pessoas que possuem suas válvulas de escape de outras formas, quem sabe um músico profissional não possa ter por exemplo a advocacia como seu hobby nas horas vagas em que não há shows? O importante é sempre buscar o caminho da felicidade, fazer o que ama e especialmente balancear!

 

Por Fellipe Madureira

Na vitrola: Dag Nasty – “Wig Out At Denko’s”

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