Ativismo

Já ouvi em minha vida inúmeras vezes as frases “Rockeiro é tudo alienado”, “Rockeiro é tudo vagabundo”, “Rockeiro é uma cambada de gente drogada”… preconceito instaurado por alguns que felizmente entra por um dos meus ouvidos e sai pelo outro. Capivarock não fará ordem de grandeza de qual estilo musical faz mais pela sociedade, mas é fato que é uma atitude nobre quando artistas utilizam sua imagem para cunhos sociais. Por mais que desconfiemos que pode haver uma “jogadinha” de marketing por trás, é bem melhor sair ganhando em algo fazendo o bem ao próximo do que explorar (negativamente) o outro. Sabemos que nem sempre é possível viver só de filantropia, mas é fato que arte e esporte são duas áreas ideais para que o uso da imagem de celebridades seja revertida em caridade ao próximo.

Há inúmeros eventos que possuem características de filantropia. Me lembro nos idos de 1993, aos 17 anos, quando eu toquei como músico no primeiro evento beneficente da minha vida: Não Esperem Que Façam Por Nós era o nome do evento que foi realizado no Garage Art Cult – para quem não sabe, o principal local de shows independentes no Rio de Janeiro no início os anos 90 – comandado pelo Fábio Costa (DEP) e outras bandas atuantes da época. Eu era baterista da banda The Fectos, que estava há poucos meses tocando no circuito de bandas. Outras nove bandas fizeram parte do line-up deste evento, incluindo a consagrada Planet Hemp (que nem havia lançado seu disco de estreia e com o falecido Skunk no palco) e banda Cabeça, um trio de skate rock que era bastante popular e cujo vocalista Fabio Kalunga nos deixou precocemente na semana passada. O evento estava lotado e lembro de conversar com meus companheiros de banda que tínhamos ficado na melhor escalação do evento, pois tocamos entre estas duas atrações que eram as mais famosas! Entre as músicas no set list da minha banda, lembro de tocarmos a música “Bombtrack” do Rage Against The Machine e o palco lotou de gente, que subiu para cantar junto de nós o clássico e poderoso refrão Burn, burn, yes ya gonna BURN!!(sic) Que lembrança sensacional! Os anos se passaram e eu fiz parte de inúmeros eventos beneficentes com outras bandas, é sempre bom participar de ações com este propósito – desde que sejam sérias, claro.

Pelo mundo vemos artistas que organizam eventos em prol de causas nobres e são conhecidos pelo ativismo, seja ele qual for: humanitário, pelos animais, pela natureza… talvez a banda mais famosa neste aspecto seja o U2, que está em turnê no Brasil nesta semana. O vocalista Bono provavelmente é um dos maiores defensores de causas humanitárias (inclusive de perdão de dívidas de países do Terceiro Mundo, visitando e fazendo reuniões com chefes de Estado nos países que a banda realiza seus shows) do showbiz. A primeira iniciativa em escala mundial que Bono participou foi um grupo chamado Band Aid criado por Bob Geldof e Midge Ure em 1984 no intuito de reunir artistas britânicos para arrecadar fundos para combater a fome na Etiópia. O single da música “Do They Know It’s Christmas?” foi gravada próximo às festas de fim de ano e chegou rapidamente ao topo das paradas de sucesso na Inglaterra e arrecadou em vendas aproximadamente 25 milhões de dólares. Outros músicos renomados participaram deste projeto: Phil Collins, Duran Duran, George Michael, Boy George entre outros. Este evento inspirou um dos maiores festivais beneficentes da história: o Live Aid. Realizado no estádio de Wembley (Inglaterra) em 1985, Geldof  e Ure idealizaram este evento como uma continuação ao single lançado no ano anterior (citado acima) e ocorreu um outro show do festival simultaneamente na Filadélfia/EUA. Um detalhe bastante interessante é que no show da Filadélfia houve a primeira reunião dos ex-integrantes do Led Zeppelin (com Phil Collins na bateria, visto que John Bonham havia falecido cinco anos antes que culminou o encerramento da banda) e o retorno da formação inicial do Black Sabbath com Ozzy Osbourne nos vocais. No show americano, a noite foi encerrada pelo USA for Africa (a sigla USA representava United Support of Artists” – Apoio Unido dos Artistas) que era uma ideia criada pelo ativista Harry Belafonte – famoso por gravar a música “The Banana Boat Song”, lançada em 1957 – reunindo celebridades em alta no mundo da música à época para conseguir recursos e contribuir para diminuir a fome e a miséria no continente africano. O single “We Are The World”, composto por Lionel Richie e Michael Jackson e produzido por Quincy Jones, foi um sucesso de vendagem girando em torno de 7 milhões de cópias, fora o valor arrecadado em itens de merchandise. Ainda me lembro quando criança que assisti este videoclipe pela primeira vez no programa dominical noturno de variedades da maior emissora do Brasil (que até hoje existe) e as rádios a executarem muitas vezes ao dia em sua programação. O ano era 1985 e participaram nomes importantes como Stevie Wonder, Bruce Springsteen, Cyndi Lauper, Tina Turner, Ray Charles e diversos outros.

Band Aid – “Do They Know It’s Christmas?”

 Led Zeppelin com Phil Collins ao vivo no Live Aid 1985 (completo)

 USA for Africa – “We Are The World”

Também em 1985, na carona das boas ações, os artistas brasileiros não ficaram atrás e arregaçaram as mangas para fazer sua parte. Um grupo se reuniu para gravar um álbum chamado Nordeste Já para angariar fundos visando diminuir a tragédia causada pela seca na região Nordeste do país. Inspiradas na versão americana de ajuda à África, as músicas “Chega de Mágoa” e “Seca d’Água” foram gravadas por alguns intérpretes principais (Milton Nascimento, Gilberto Gil, Djavan, Rita Lee, Gonzaguinha, Elba Ramalho, Fafá de Belém, Tim Maia, Roberto Carlos, Erasmo Carlos, Simone, Elizete Cardoso, Chico Buarque, Gal Costa, Maria Bethânia, Caetano Veloso e Fagner) e mais 155 pessoas que gravaram o coro marcando sua participação neste registro. A música “Chega de Mágoa” era o carro-chefe e também foi executada em alta rotatividade nos programas de televisão e nas rádios.

Nordeste Já – “Chega de Mágoa”

A banda australiana Midnight Oil, conhecida no Brasil por ter sido enquadrada pela mídia como parte do estilo surf music, porém possui seu discurso galgado em causas políticas e ambientais. Numa turnê da banda em 1986, a banda realizou shows em locais remotos na Austrália, habitados por aborígenes, testemunhando as condições precárias de moradia e saúde deste povo. Seu vocalista, Peter Garrett, chegou a presidir duas vezes a Fundação Australiana de Conservação (Australian Conservation Foundation, que é uma das organizações não-governamentais e filantrópicas mais importantes na defesa ambiental), é ativista do Greenpeace e já foi Ministro da Educação e Juventude e Ministro da Proteção Ambiental na Austrália. Uma passagem marcante do posicionamento de protesto da banda foi durante o show da cerimônia de encerramento dos jogos olímpicos de Sydney em 2000: a banda se apresentou para milhões de telespectadores por todo o mundo utilizando roupas com a palavra “Sorry” (Desculpe, em inglês) escrita em protesto ao primeiro ministro da Austrália, John Howard, cujo governo se recusou a pedir desculpas públicas ao povo aborígene pela antiga política instituída de retirar crianças aborígenes de suas famílias. Em 2004, a banda realizou dois shows extraordinários (a banda estava em hiato naquele momento) para arrecadar verba para as vítimas do tsunami que ocorreu no oceano Índico. Garrett também já recebeu alguns prêmios por ações humanitárias realizadas.

Midnight Oil – “Beds Are Burning” (encerramento dos jogos olímpicos de Sydney 2000)

Citamos apenas algumas iniciativas beneficentes que fizeram história. Mesmo que “invisíveis” à grande mídia, é certo afirmar que eventos beneficentes com seriedade ainda existem em vários segmentos. Como infelizmente vivemos num país em que o conceito de sociedade é completamente ignorado pela classe política (e infelizmente às vezes pela própria população), restam as pessoas públicas continuarem a utilizar sua imagem para reduzir as catástrofes cotidianas criando eventualmente iniciativas com este propósito. Também há inúmeros artistas engajados em causas políticas discursando nos mais diversos posicionamentos. Mas para evitar polêmicas, pois no mundo de hoje discutir política é igual discutir sobre futebol, Capivarock prefere se resguardar e apenas se posicionar que defende um país digno, livre de toda a corrupção em todas as esferas políticas e em qualquer partido.

Encerrando a coluna ainda falando de ativismo, há alguns meses solicitei aos amigos do A Capivara Deu Cria ajudarem numa campanha para fortalecer a doação de medula pois um grande amigo de minha esposa, o Paulo Roberto (conhecido como Paulinho), se juntou aos braços do Pai nesta última terça-feira (dia 17). Ficou a marca de um guerreiro pela vida e a comprovação de ser uma pessoa bastante querida, pois a mobilização para ajudar em sua cura chegou nas redes sociais com bastante força, nos canais de televisão e nos estádios de futebol, impulsionado pela torcida do seu time de coração, o Botafogo/RJ. Esta coluna de hoje é inteiramente dedicada a você, Paulinho. Obrigado pelo privilégio de, mesmo que por pouco tempo, ter a oportunidade de passar por sua vida. E obrigado pelo seu eterno otimismo, que sirva de exemplo para todos nós. PAZ.

Por Fellipe Madureira

Na vitrola: Midnight Oil – “Blue Sky Mine”

 

Um comentário em “Ativismo

  • 20 de outubro de 2017 em 14:57
    Permalink

    Ajudar o próximo é sempre algo bom de se fazer. Não adianta só reclamarmos, temos que fazer a nossa parte independentemente de qualquer coisa. E ver artistas usando o prestígio é sempre bom.

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