Rock in Rio

Rock in Rio

É normal associarmos acontecimentos históricos a certos eventos. Em 1984 o Brasil passava pela campanha Diretas Já que tinha como finalidade instituir eleições presidenciais no país, que já vivia 20 anos de regime militar. Esta campanha não obteve o êxito no momento esperado, porém foi aprovada uma assembléia constituinte e anos à frente as eleições diretas foram realizadas. Com a nomeação de Tancredo Neves como Presidente do Brasil em votação indireta em Janeiro de 1985, o primeiro presidente civil em 21 anos, o país respirava ares de otimismo com seu futuro. Neste mesmo mês foi realizado o primeiro Rock in Rio e o público também exalava otimismo e união num evento inédito no país.

 Tema de abertura Rock in Rio

Poucos artistas de grande expressão incluíam o Brasil em suas turnês e o Rock in Rio quebrou este paradigma. O planejamento do festival escalou dois shows de cada artista (com a exceção do Iron Maiden) diariamente entre 11 e 20 de Janeiro num terreno imenso que foi batizado de “Cidade do Rock”. Agraciados com uma chuva torrencial em vários dias, a Cidade do Rock parecia um mangue mas nada que tenha diminuído a empolgação de fazer parte de um evento histórico. Performances clássicas do Queen, AC/DC, James Taylor, Scorpions, Paralamas do Sucesso, Barão Vermelho, Blitz e muitos outros artistas até hoje são lembradas em vídeos na internet com qualidade questionável pelo tempo, poucos recursos tecnológicos e de acervo, mas é impossível não sentir uma energia diferente ao assistir. Eu tinha 8 anos de idade à época festival e lembro-me de assistir na TV alguns shows – alguém me corrija se a memória falhar, as transmissões eram ao vivo mas não passavam os shows na íntegra, apenas alguns minutos intercalando com a programação normal. Eu falava com meus pais que tinha vontade de assistir os shows, mas era um delírio da minha parte imaginar que meus pais me levariam ao show…risos… mas algo que me deixou orgulhoso foi meus primos Marcos e Marcelo, adolescentes à época, e meu pai (que foi a trabalho) testemunharem vários shows. Eu tinha revistas do Rock in Rio, eu respirava aquele ambiente como se eu estivesse presente no festival… eu era um garoto sonhador! (risos)… em números, o primeiro Rock in Rio foi um case de sucesso com um público total de 1 milhão e 380 mil espectadores.

Queen – Rock in Rio 1985

A segunda edição do Rock in Rio, popularmente conhecido como Rock in Rio II, foi realizada em 1991. Nesta época a MTV já era parte do cotidiano das pessoas e junto com as rádios fazia um grande alarde das atrações que estavam por chegar. A expectativa era pelo Guns N’ Roses, grande nome do festival que estava no auge da carreira e estreava baterista novo (Matt Sorum). Já com 14 anos de idade, consegui fazer parte deste evento que foi realizado no Maracanã ao invés da Cidade do Rock por motivo de sua demolição, ordenada pelo então governador do Rio de Janeiro, Leonel Brizola. Nada que tivesse impedido ou diminuído a empolgação do evento, eu cheguei até a comprar uma camisa que não cabia em mim de tão grande só para ter uma lembrança pois era incerto saber se haveria outro festival futuramente. Nesta edição a produção manteve o planejamento de dois shows da maioria dos artistas principais. Nomes como Prince, INXS, A-Ha, Faith No More, George Michael, Megadeth, Judas Priest, Sepultura, Engenheiros do Hawaii, Supla e vários outros participaram desta edição. Quem não se lembra do inesquecível momento em que Lobão foi expulso do palco? Estive presente em 3 dias, assisti os headliners INXS, Guns N’ Roses (junto da minha saudosa irmã) e George Michael. No dia do INXS também teve show de Carlos Santana e Billy Idol e antes de sair de casa minha mãe me dando as velhas recomendações de segurança que todos os pais dão e que a gente quando é adolescente sempre fica pensando “tá bom, mãe” com aquele ar de impaciência… risos… meu primo Marcelo, que citei acima e foi ao primeiro Rock in Rio, estava comigo neste dia – ele tinha 23 anos – e minha mãe mesmo sabendo que ele era uma pessoa ajuizada, ficou preocupada. Era uma época que não existia celular, não existia internet e viva-se muito bem mas preocupação de mãe nunca muda, não é?…risos… Pois bem, voltando aos shows, eu passei a respirar o ambiente do festival dentro dele! Comprei alguns discos de vinil de artistas participantes nas lojas do festival, me diverti demais e nem me dava conta de um tumulto talvez até maior do que os jogos de futebol do estádio. A diferença é que este era um jogo de torcida única e sem disputa entre adversários. Eu finalmente ia ao meu primeiro festival de Rock em proporções dos maiores eventos mundiais! Todos estavam lá por um único objetivo: a música! O público total do festival ficou em 700 mil, pois houve menos dias de shows e possivelmente as limitações do Maracanã restringiram uma lotação maior.

Guns N’ Roses – Rock in Rio 1991

Faith No More – Rock in Rio 1991

Lobão – Rock in Rio 1991

O festival então teve o maior hiato de sua história: 10 anos depois, o Rock in Rio voltou. Batizado de Rock in Rio III, o evento retornou à Cidade do Rock onde foi realizada a primeira edição. Desta vez a proposta do festival teve um cunho diferente: não havia os shows num palco único. Tendas foram espalhadas pela Cidade do Rock no intuito de disponibilizar mais atrações, como a Tenda Brasil e a Tenda Eletro. E claro, eu estava presente nesta edição para assistir as atrações principais de dois dias: Iron Maiden (que gravou seu DVD neste show) e Red Hot Chili Peppers (também junto da minha irmã). Neste ano não se repetiam as atrações, os artistas se apresentavam num único dia, o que fez acirrar mais a concorrência dos ingressos. Eu já era um adulto mas ainda tinha toda aquela empolgação em estar no evento assistindo bandas que eu sempre gostei. Algumas surpresas ocorreram, como o show acústico do Capital Inicial no palco principal (chamado de Palco Mundo), o Guns N’ Roses desfigurado (porém fez um show competente) e outros destaques como R.E.M., Foo Fighters, Pavilhão 9, Diesel, Sting, O Surto, Oasis e Dave Matthews Band. Na Tenda Brasil, lembro de shows espetaculares das bandas Rumbora e Tihuana que mereciam ter tocado no palco principal diante da reação do público, que hostilizou Carlinhos Brown numa chuva de garrafas d’água. No dia do Iron Maiden, considerado o “dia do Metal”, é preciso mencionar que o ambiente estava bem tranquilo porém não há como dizer o mesmo no dia do Red Hot Chili Peppers. Eles vinham da turnê do disco Californication que teve a volta de John Frusciante à banda e que os popularizou em todo tipo de público. Os apelidados pitboys, que eram pessoas com porte físico avantajado mas que só tinham intenção de arrumar confusão, não “decepcionaram” sua fama e causaram um caos geral na área onde ficavam as lojas do festival, a ponto dos seguranças recuarem e fugirem da briga. Ali eu percebi que o dia poderia não acabar muito bem, o clima não estava legal e resolvi sair do show do Red Hot Chili Peppers antes de seu encerramento. Eu assisti a queima de fogos do fim do festival no caminho do carro – sim, nessa época você ainda conseguia ir de carro pro festival e estacionar relativamente perto sem maiores problemas e irregularidades. Para os registros, o show do Red Hot Chili Peppers foi o mais cheio desta edição e o público total em 2001 foi de 1 milhão e 235 mil pessoas.

Rumbora – Rock in Rio 2001

Carlinhos Brown – Rock in Rio 2001

Iron Maiden – Rock in Rio 2001

O Brasil experimentou mais um longo hiato do Rock in Rio e em 2011 o festival retornou às terras cariocas. Novamente realizado na Cidade do Rock, as principais atrações desta edição foram Metallica, Red Hot Chili Peppers, Stevie Wonder, Rihanna, Coldplay e Guns N’ Roses. Compareci nos dias do Metallica e Guns N’ Roses, porém o show do GN’R foi um dos maiores fiascos que eu já assisti na vida: um longo e desrespeitoso atraso e uma chuva que desanimou mais num show sem empolgação. Neste dia fui salvo pelo System of a Down que fez um show espetacular. O Detonautas Roque Clube também representou bem a música brasileira num show arrebatador no palco mundo. No dia do Metallica, Slipknot fez um show irretocável e consegui assistir pela última vez a lenda Lemmy tocando com o Motörhead. Nesta edição o grau de maturidade do evento aumentou exponencialmente, pois incluíram o palco Sunset com alguns shows mais empolgantes que alguns do palco Mundo. Até a logística foi melhorada, pois eles disponibilizaram ônibus exclusivos para que o público evitasse ir de carro, já que muitas ruas em torno do evento foramfechadas e vários locais estavam sujeitos à multa. Retornei ao festival apenas em 2015, no dia em que a atração principal era o System of a Down e fazendo menção honrosa ao show do CPM 22 no palco Mundo (que rendeu a gravação de seu DVD).

Metallica – Rock in Rio 2011

Detonautas – Rock in Rio 2011

CPM 22 – Rock in Rio 2015

Mas o Rock in Rio não é uma exclusividade de nós brazucas. Em 2004 o festival foi “exportado” para Lisboa acontecendo de forma bienal. Outras cidades também receberam o festival, como Madrid e Las Vegas. O que podemos concluir é que o Rock in Rio deixou de ser apenas um festival de música, mas se tornou uma das marcas com marketing mais agressivo que existem. Um sonho do empresário Roberto Medina que proporcionou sonhos a outras pessoas tornando uma marca forte. Atualmente não há o consumo exclusivo de música, há várias atrações no festival o transformando num grande centro de entretenimento. E o que mais ouvimos por aí é a famosa polêmica: “Rock in Rio só tem Rock no nome”… pois bem, analisemos prática e friamente: é exatamente isso! O festival Rock in Rio deixou de ser um festival essencialmente de Rock há muitos anos! Mas o Rock sempre esteve presente, muita gente associa o evento às bandas mais pesadas…na minha opinião o grande barato do festival é conseguir agregar gregos e troianos e caso haja algum show que não agrade, basta não ir… apesar de ser um evento relativamente cansativo pela sua duração diária, excesso de atrações e pela extensão da área do festival, é impossível alguém ousar dizer que o Rock in Rio é um fracasso. Talvez a grande cartada do marketing deles seja exatamente essa: pensar fora da caixa! E você, já pensou fora da caixa? 🙂

Por Fellipe Madureira

Na vitrola: AC/DC – “Hell’s Bells”

2 comentários em “Rock in Rio

  • 15 de setembro de 2017 em 17:05
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    Fui em 2001 e em 2013. Em 2001 fui no dia do Metal e foi sensacional. Fui no último dia também, e assim como você (sem trocadilhos por favor…hahauahuaha) vi a queima de fogos indo pra casa, mas de ônibus.
    Em 2013 fui em dois dias, e vi Alice In Chains e Muse, bandas que queria ver há tempos. A proposta do festival as vezes me incomoda…show muito curtos e bandas que deveriam estar no palco principal tocando no palco sunset… mas isso sempre foi assim né?
    A impressão que tenho é que os dois primeiros festivais foram mais honestos em relação ao headliners, mas…é sempre bom ter eventos grandes de Rock aqui na terra do samba, do pagode e do funk.

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  • 16 de setembro de 2017 em 10:43
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    Na boa? Eu entendo que as diferenças entre o POP e o ROCK, em questões como ritmo e melodia, são muito subjetivas. Na seara específica daquilo que costuma ser chamado de ROCK, já existem diferenças bem marcantes, seja de estilo, melodia, ritmo, estrutura, e por aí vai. Seguindo nessa trilha, me parece que sua percepção é bastante coerente. O RiR, estrategicamente, foi concebido para ser um festival de música relativamente aberto a estilos, vertentes ou tendências. Logo na primeira edição, o pacotão incluía Queen, Yes, George Benson, James Taylor e até mesmo Elba Ramalho. Bem, não todos no mesmo dia, mas estávam todos lá, para satisfação de uns e desagrado de outros.
    Para colocar um pouquinho de gasolina nesta discussão, fico pensando se no futuro não venha a aparecer um RiR que inclua na programação, artistas que representem os estilos de Garth Brooks, Keith Urban, Carrie Underwood, Blake Shelton, e, até mesmo, Bruna Viola e Almir Satter.
    Calma gente! rss
    Mais um gol, Fellipe! Abraço!

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