E o sucesso de hoje é… mas e amanhã?

Num dia comum no final dos anos 80, ao acordar, ligo o rádio e um riff de guitarra brevemente seguido pelas palavras “Josie’s on a vacation far away, come around and talk it over” entranham meus ouvidos e fico prestando atenção numa suposta nova música que na realidade foi lançada em 1985.

Aguardo o seu final até o locutor dar os créditos à música: uma banda chamada The Outfield com a música “Your Love”, integrante de seu disco de estreia intitulado Play Deep. Aquela música martelou meus ouvidos por muito tempo, eu vivia a época de descoberta musical sendo o rádio a principal fonte de informação de novidades, comprava vários vinis (quando estes eram baratos e compensavam comprar), as festinhas de pré-adolescentes ainda tocavam rock nacional e internacional… mas estranhei um detalhe: durante anos e anos foi a única música dessa banda a fazer sucesso. Nunca mais ouvi nenhuma outra música deles e acabei não me interessando pelo resto da discografia. Este relato acima é um fenômeno que se chama one hit wonder, eufemismo para “banda/músico de um só sucesso”.

Sem rotular ou fazer julgamentos, há inúmeros artistas marcados por este termo. Um exemplo deste fenômeno foi a música pop internacional no final dos anos 80 produzida por um trio britânico de produtores que ficou famoso e levava o nome de Stock/Aitken/Waterman (seus sobrenomes, também conhecidos como SAW) que lançou artistas como Rick Astley, Sonia, Bananarama, Kylie Minogue e outros. Até meados dos anos 90 choveram artistas com essa característica, onde produtores encontravam alguém com uma aparência “vendável” ao mercado, que soubesse cantar um pouco (nem sempre isso era um requisito obrigatório) e principalmente emplacar uma música compostas pelos próprios produtores. Justiça seja feita a alguns artistas que tiveram mais de um hit, mas a grande maioria arrematou apenas um sucesso e desapareceu do mapa. E por incrível que pareça, até hoje o trio SAW produz artistas porém sem o apelo das décadas passadas.

 

Não deixando de fora os anos 70, esta foi a década onde surgiram vários artistas de um sucesso só pegando carona na Disco Music. Alguns exemplos óbvios: “Got to be Real” de Cheryl Lynn e “Ring My Bell” de Anita Ward. No Rock dos 70, “Love Hurts” (Nazareth), “Feelings” (Morris Albert, que é o nome artístico do brasileiro Maurício Alberto) e “Cat Scratch Fever” (Ted Nugent) fazem parte dos muitos “hits solitários”. Voltando aos anos 80, essas músicas marcaram época: “Tainted Love” (Soft Cell), “It’s My Life” (Talk Talk), “Relax” (Frankie Goes to Hollywood), “Build” (The Housemartins) e “Don’t Worry, Be Happy” (Bobby McFerrin).

“Build” (The Housemartins), mais conhecida como Melô do Papel.

 

Nos anos 90 podemos citar os clássicos de Sinéad O’Connor (“Nothing Compares 2 U”, composta por Prince), Vanilla Ice (“Ice Ice Baby”), Four Non Blondes (“What’s Up”), Dishwalla (“Charlie Brown’s Parents”), New Radicals (“You Get What You Give”). A lista não para, senão a coluna acaba só no Natal (risos). Nos anos 2000, a balada “The Reason” da banda Hoobastank representa bem o conceito de one hit wonder.

 

 

E na nossa terrinha não é diferente. Já tivemos uma enxurrada de artistas que conseguiram emplacar um grande sucesso e não repetiram a dose. Alguns dos marcos deste movimento são as músicas “Ursinho Blau Blau” da banda Absyntho, cujo título foi incorporado ao nome do vocalista da banda (Sylvinho Blau Blau), “Amante Profissional” com a banda Herva Doce, “Eva” da banda Rádio Táxi (você achou que essa música era da Banda Eva ou da Ivete Sangalo?…risos), “Sonho de Ícaro” com Biafra (a famosa “voar voar, subir subir”), “Menina Veneno” do Richie, “Heloísa, mexe a cadeira” do Vinny, “A Cera” da banda O Surto (que emplacou no palco Mundo do Rock in Rio 3 em 2001), “Palpite” de Vanessa Rangel, “Bagulho no Bumba” dos Virgulóides, aquele hit grudento “Papo de Jacaré” de uma banda chamada P.O. Box viralizou e sumiu na mesma velocidade e até uma cantora chamada Luka com o hit sazonal “Tô nem aí”.

 

 

É inevitável pensar numa possível segunda música de sucesso de algum desses artistas. Creio que tão difícil quanto emplacar um hit e fazer com que ele caia no gosto popular é dar continuidade ao trabalho. Tudo é uma questão de perspectiva, pois há casos em que músicas lançadas como “lado B” acabaram ficando mais famosas do que as músicas principais de trabalho.

A balada “Beth” da banda Kiss (cantada pelo baterista Peter Criss) era lado B no single de “Detroit Rock City” (um dos clássicos da banda) e acabou se tornando o single mais vendido da banda nos Estados Unidos até os dias de hoje mais devido ao sucesso da balada. Analisando o lado do artista, há a cobrança para que o segundo trabalho tenha uma qualidade tão grande quanto do primeiro sucesso consolidado.

O artista sempre faz o máximo para que sua música tenha sempre um nível de qualidade – não sendo característica de uma música apenas – mas nem sempre a receptividade do público transforma uma música que pode ser ainda melhor que a anterior num megahit. É uma ciência que nunca será exata, pois como diz o velho ditado, “gosto não se discute, se lamenta” (risos) – o que é um fato em se tratando do consumidor, principalmente dos críticos de música e os famigerados “formadores de opinião”.

 

 

Nota: os artistas mencionados aqui podem ter tido outras músicas com boa repercussão mas estamos mencionando exemplos das músicas que emplacaram nas paradas de sucesso, ou seja, hits comerciais. Não estamos sendo injustos com os artistas, OK? 😉

Algum one hit wonder que você lembra que não foi mencionado aqui e que tenha marcado a sua vida? Capivarock quer saber qual é aquela música que você nunca esqueceu, mas esqueceu qual era o artista que a cantava! Compartilhe suas opiniões! 🙂

Na vitrola: Naked Eyes – “Always Something There To Remind Me”

Por Fellipe Madureira

Bônus track:

 

 

4 comentários em “E o sucesso de hoje é… mas e amanhã?

  • 4 de agosto de 2017 em 10:38
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    Me lembro do Hojerizah com “pros que estão em casa” e Picassos Falsos com “Quadrinhos”. Aliás trabalhei com o baixista dos Picassos (uiiii!!! Rsrsrs) no Jornal O Globo.

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  • 4 de agosto de 2017 em 10:48
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    Ihhh são tantas one hit wonders que me marcaram… Londonbeat – i’ve been thinking about you; EMF – Unbelievable; Jesus Jones – Right Here, Right Now; Soup Dragons – I’m Free ( música dos Rolling Stones)… tem um monte !

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  • 4 de agosto de 2017 em 11:03
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    Ahh, eu trabalhei com o sobrinho do Morris Albert, mais conhecido por ele como Tio Maurício Alberto. Ele me contou na época que o tio dele vivia ainda de música, até porque a música Fellings fez muito sucesso nos anos 70 e foi muito regravada, ate o Offspring fez uma versão, que aliás eu achei ótima, melhor que a original 😁

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  • 7 de agosto de 2017 em 11:40
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    Me lembro de Puêra, da banda Catapulta! Ouço até hoje!!!

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